Um Olhar para Casturina
Eu vi Casturina no fogo de chão, Na fôrma do pão que vai para as brasas, Nas gastas bandeiras da roupa lavada Secando as aguadas na cerca "das casas". Eu vi Casturina no céu da janela Espelhando aquarela em matiz de manhã, Limpando a parede barreada do rancho E a trempe de gancho de pó e picumã. Em torno da prole, de asas abertas, Qual ave coberta de penas e sinas, Na dura partilha do pão e do vinho, Guardando o seu ninho, eu vi Casturina! A vi sobre as águas barrentas do rio, No canto vazio onde pousa a vassoura, Na horta pequena de vime cercada E na face queimada no sol da lavoura! Eu vi Casturina nas mãos da parteira, Audaz parideira no broto dos filhos... No vento minuano lambendo os cabelos Que afaga com zelo as bonecas do milho. Eu vi Casturina postada em trincheira No vão da porteira que dá pro "Cerrito" E em cada partida de adeus e de fuga Que a vida refuga no andar do proscrito. Em noites de rondas, de causo e fogão, Em que assombração é uma imagem teatina. Nos olhos dos filhos, brilhosos de medo, Contando segredos... Eu vi Casturina! A vi enfurnada num fundo de campo, Nos olhos de pranto por sinas malevas E em cada coruja que arrulha tapera Nos sóis de quimera que brotam das trevas! Eu vi Casturina em cafés de cambona, Em cada atafona faminta de milho E na boca de cerne voraz de um pilão Que sova no grão o sustento do filho! Eu vi Casturina na cerca de pedra, Na chuva que medra o dourar das espigas, No som preguiçoso de alguma guitarra, Na voz da cigarra e no andar da formiga! Na boca de poço que engole a vertente, Na corda rangente do balde na mina E em cada gotinha que pinga da água Espelhos da mágoa, eu vi Casturina! A vi pelas sangas, de anil e sabão, Gastando nas mãos a lã do tecido E no catre macio de palha e pelego Nos desassossegos de mais um marido! Eu vi Casturina envolta nos lenços, No cheiro de incenso, no chiar da chaleira, E no sangue das veias que correm na história Cobrindo de glória o brasão dos Ferreiras!! Nas vestes de negro, nas brumas do pó, No mimo da avó com a neta menina, Na raça de bugra, na estampa de bruxa E na história gaúcha eu vi Casturina! Eu vi nossa história vestida de prenda, Eu vi uma lenda da nossa doutrina Eu vi uma mescla de índia e imigrante, Eu vi o Rio Grande, pois vi Casturina!