Pra Quem Tem Alma de Campo
Nasci no campo, como nascem tantos outros, Ouvindo os potros em relinchos, de retoço, Os sons da vida nas vozes da natureza E a correnteza do arroio, antes do poço
Um céu azul, com sol de ouro na paisagem, Densa pastagem pelas várzeas e coxilhas Noites bordadas pela luz dos vagalumes Doces perfumes das flores das maçanilhas
Um rancho simples, onde à sombra do beiral Tinha um ritual pra os fins de tarde, o chimarrão, A prosa mansa da família reunida Gente sofrida mas com alma e coração
Tinha meu mundo num pedaço do meu pago E um sonho vago de romper as cercanias Para saber que mundo é esse dos povoados Tão afastados da campanha em sesmarias
Vim descobrir por entre os muros e calçadas Feições judiadas que perderam a referência Nossos irmãos changueando a vida por misérias E nas artérias seiva bugra da querência
Não se ouve nem um “buenas meu parceiro” O tempo inteiro é só barulho e correria A insegurança cada vez tá mais presente E o que se sente é a ausência de alegria
Tem certas horas que me perco em pensamentos E por momentos saio pra longe de mim Imaginando ouvir o som da cachoeira Vida costeira lá dos rincões de onde vim
Enquanto aqui, vou me esquivando das malícias Chegam notícias de mais campos degradados, Monocultura modificando a paisagem E a triste imagem dos campeiros despejados
Já não consigo acreditar neste progresso Que é retrocesso por ganância,com certeza, Talvez meus netos vão pagar toda essa conta De quem afronta e maltrata a natureza
Se um dia, enfim, o campo então virar lembranças Por circunstâncias ou vontade de alguns poucos, Eu quero estar, qual cerne bugre ao descampado, Garrão trancado, dando laço nesses loucos
Vejo em meus sonhos de guri de alma campeira Serra e fronteira num abraço fraternal E a pampa larga, que se perde na paisagem, Dando passagem pra um saludo ao litoral
Às vezes penso quando olho pro futuro Onde procuro ver meu mundo mais adiante Que é necessário muito amor por este Estado Sempre judiado pela casta dominante
Homens de bem, homens de fé e mãos grosseiras Cerrem fileiras nesta luta contra o mal Choram os rios com suas águas poluidas Sangram feridas na minha alma de rural...