Ofício de Benzedeira
Dona Antônia faz a reza, Que a gente quase não ouve, Porque nasceu noutro tempo… Dona Maria dos chás Tempera com mel e magia, Com bondade e sapiência, Que a gente ainda não tem… São mulheres benzedeiras, São iguais a outras tantas Que partiram deste mundo Prum lugar, talvez, melhor… São mães, são tias e avós Que curam corpos e almas Cansadas de um sofrimento, Que ninguém consegue ver. Os nomes dessas mulheres Não figuram em registros, Em matérias publicadas, Tampouco nalgum recibo, Que comprove pagamento, Pelas curas realizadas Ao longo de suas vidas! Senhoras, de nobre ofício, Que trazem a luz nas mãos… Que bloqueiam energias -pro mau-olhado, sal grosso- Quando fazem seus pedidos Numa reza cochichada, Com um raminho de arruda Banhado em águas de sal. Dona Antônia, em suas rezas, Já curou muitas feridas Abertas dentro do peito. Lencinho branco, avental, Olhar nublado de adeus: “Já pode voltar pra casa. Faça repouso e se cuide Que o resto quem faz é Deus!” Dona Maria dos chás, Eliminou tantos males Espalhados pelo corpo... Curou o “nervo rendido”, A “espinhela caída”, Também a “carne quebrada” e muita dor de barriga. Uma garrafa com água Junto à brancura de um pano, Deitado sobre a cabeça, Retira o sol, que arde E cozinha os miolos, De quem, junto da enxada, Trabalha o dia inteiro Para ter o pão na mesa... Mãe Maria e vó Antônia... Mulheres, de um outro tempo, Que ainda exercem seu dom. Que muito sabem de curas E cuidam das criaturas E do mal da humanidade. Hoje, espiam a estrada Com grandes nuvens no olhar... Os homens buscam respostas, Muitas vezes, em lugares Que só trazem mais perguntas Que ninguém vai responder... Existem muitos remédios, Muitas receitas e doses Que só o corpo precisa. E a alma? Que vai fazer? As pragas andam à solta Disfarçadas com perfume De flores plastificadas, Para invadir a morada De quem se vê distraído, Para enterrar suas garras Rasgando a carne dos fracos... Somente as benzedeiras Sabem de curvas e abismos, Sabem das sombras do mal. O Senhor, como missão, Concedeu somente a elas Transitar pelos caminhos Do mundo espiritual!