O Viajante Enraizado
I
Viajante! Por mais que me despeça e lote a mala, por mais que, pela estrada, abane o pala, permaneço. Por mais que o vento empurre o meu destino me prende um laço - outrora um boi brasino - e eu padeço...
Viajante! Eu iço as velas pelo céu afora e o mar, indômito, me leva embora pelo avesso! Não vou, mesmo a caminho, navegando, retém-me alguma âncora, até quando esmoreço... . Viajante sem estrada, percorro a geografia desses nadas com a bússola da alma, bruxa sem maneias...
Viajante enraizado, enxergo, dentre a treva, o apagado e o súbito na calma, ao tempo das areias!
Enraizado... Por tantas gerações no mapa-pampa: do ventre ao berço ao basto ao catre à campa; adormeço! O vento arranca as ramas e as sementes e, assim, no que serei, eu sigo em frente e envelheço...
Enraizado... Eu cruzo as longitudes do planeta, deixando atrás um rastro de carreta... Pago o preço! Às vezes, o quintal de nossa casa nos vale muito mais que um par de asas, reconheço...
Viajante sem caminhos... Escrevo o rastro nesse pergaminho de inóspitos desertos e rincões tão verdes...
Viajante enraizado, conheço o que não foi apresentado, no cíclico vapor que há de matar-me a sede...
II
Partir sem repartir os elos da corrente... Andar pelas veredas mais desconhecidas; nos passos a lonjura do reminiscente, no espírito a raiz jamais enfraquecida...
Sou como os galhos fortes de um ipê frondoso que nunca se desprendem acenando à estrada! Plantado, vou vagando, ermo e venturoso... Caminhos sedentários, nômades moradas!
Viajo pelos livros, pelas mãos do sonho... Viajo em meu olhar que ganha o horizonte! Existe uma cancela e eu não a transponho... Há um rio antes da estrada e não encontro a ponte!
Ao ter raízes fundas e ser viajante, a antítese equilibra-se em meu coração... Há algo de pacifico e beligerante; um não sei quê de mouro e parte de cristão!
Andante como o velho cavaleiro andante que a sombra da loucura fez lutar em vão, vou, quixotescamente, ébrio e delirante voando sem tirar, jamais, os pés do chão!
Dos mouros, dos ibéricos, tanta magia! O sangue é um viajante enraizando a história... Verteu pelas espadas das cavalarias; pulsando veio a nós, por veias transitórias!
Talvez seja um feitiço que há nos meus galpões... Talvez venha das velhas furnas do Jarau... O apego pela terra eu trago de Simões e a sede dos caminhos do campeiro Blau!
No antigo Martín Fierro ainda encontro abrigo... Em mim há o paradoxo, eminente e vago... O tempo traz no vento o Capitão Rodrigo; são todos viajantes em seu próprio pago!
Comigo eles viajam, de peçuelos cheios... Andamos todos juntos, mesmo eu indo só! Meu lar é o que carrego junto ao meu arreio, e o vento caminheiro vai erguendo o pó...
Por isso em qualquer rumo dessa esfera imensa, por onde quer que andemos, sobre ou através, levamos na bagagem toda essa querência e o sul segue conosco, sob os nossos pés!