Alma em Verso
Poesia

Simplesmente... Gaúcho

Cristiano Ferreira Pereira

10º Bivaque da Poesia GaúchaPublicado em

Mal fresteias um vistaço a tua volta, nesse ranchito humilde que te acolheu no mundo, para buscar saber onde estás e quem tu és...

Talvez... em palavras poucas - qual o tempo teu - bastasse dizer de quem vens, a tua origem genética, para que - sabendo do barro de que és feito - entendas... quem tu és!...

Tens nas tuas veias o sangue miscigenado de séculos da existência de um povo aguerrido, que firmou raízes por estas terras do pampa.

Tens o sangue do índio que habitava estas plagas, valente e terrunho, latente e incontido... De quem conhece a força desse solo, de quem sabe lidar com os bichos, sabendo tirar da terra o que ela provém mas... devolvendo o seu quinhão.

Trazes a firmeza do braço do lanceiro que peleou nas contendas que a tua gente fez em defesa da honra e desse pago, pela hombridade e consciência dessa gesta. Quem sabe, ainda, seja a força e a destreza de um desjarreteador, que abatia o gado xucro campo afora, nos idos das vacarias, quando não havia cercas nem mangueiras.

Também a mão calejada do alambrador... a plantar moirões e esticar arames... ao afinar a guitarra do aramado para o cantar livre dos ventos. Isso ainda de quando as cercas eram para o manejo com o gado, não para reterem gente ou apartarem povos.

Carregas no olhar... a atenção do tropeiro... ao bombear o caminho, escolher cruzadas e... diante do rigor de sol e chuva, mormaço ou geada - que deixou a tua estirpe de couro grosso, por ser pêlo-duro - rumbear com a sina das trilhas e estradas, benzer tormentas... ou cruzar assoviando uma coplita mansa num “volver” solito.

Mais... ainda, o tino de um peão de estância - desses de todo o serviço - de acordar os galos... e encilhar antes do alvorecer. De sovar arreios e topar de frente com as agruras do seu dia a dia, sob a intempérie e o rigor da lida, mangueando a sorte que regala a vida para um porvir tranqüilo para a sua cria.

Desses que quando chove... ou nas horas de “folga”... trança seus tentos de história e crenças, até o arremate a capricho. Pois até o barreiro altera o seu tom... pra o canto enfrente ao galpão, pelo respeito que se tem à obra deste peão... que lida de guasqueiro não é ofício... é dom.

Quem sabe... ainda, tragas, a atenção e a fibra da peona, essa olvidada por muitos escribas e que margeava as casas, na labuta de tarefas e quefazeres, que tecia e cuidava dos guaxos, que foi mulher e guerreira, esposa... e enfermeira, fundida ao solo no pranto da ausência, chamando à Querência àqueles tão caros, esposo e filhos que - com ela - fizeram o Rio Grande!

O traço forte do negro... levas marcado na tez. Negro que veio escravo, que ombreou postes e pedras para erguer os ranchos e galpões, cercas e mangueirões. Que trouxe o ímpeto guerreiro e a insaciável sede de justiça que sentes ...sem saber. Negro que peleou pelo ideal dos teus, mesmo sendo tratado bem diferente, pois quando erguida - inconseqüente - muita mão covarde... surrou homem valoroso e valente, apenas por ter cor e crença distinta ou pelo temor de sua capacidade de lutar... sem saber do valor da sua semente, que expele pelos poros de nossa gente na coragem e na gana de ter paz.

Quisera poder explicar, o que procuras enxergar. Mas bombeando ao teu redor, vais entender que teu lar é parte de uma odisséia de muitos e muitos homens e mulheres, - inclusive de além mar - que pelearam pelo direito a liberdade e o de ter paz e igualdade, superando adversidades por anos e anos, ao longo de séculos, pela força de seu sangue, pela saga de coragem, abençoada pelo suor que dignifica a vida simples, sem luxo. Te digo isso... guri, misto branco, negro... bugre... para que saibas, que tu és prova viva dessa história, uma página de glórias ou simplesmente... Gaúcho!...