Alma em Verso
Poesia

O Sexto Sentido

Rodrigo Bauer

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I

Primeiro foi a visão! Feito o vidro da janela que vai ficando embaçado, nos dias em que a umidade não sabe se vai embora, se verte ou se evapora, se volatiza ou se chora, mas permanece lá, então...

Foi ficando desfocado o que era transparente, foi acordando o começo de uma dúvida silente... Pouco a pouco, a insegurança veio minando a esperança que havia no coração!

II

Depois um leve vazio daqueles sons cotidianos que se escutava tão perto... De repente, todo o mundo passou a falar baixinho e, até mesmo, os passarinhos arquitetaram seus ninhos bem mais distantes, sentiu...

Mais íntimo do silêncio que, aos poucos, foi conhecendo, muitos ramais com seu tempo foram cansando e rompendo! Alguns ainda o chamavam, exasperados gritavam, mas ele não os ouviu...

III

O mundo gira ligeiro! E o vento leva o perfume até que o frasco esvazia! Quando termina a fragrância que se mantinha tão viva resta a memória olfativa; toda uma herança expressiva feita em retalhos inteiros...

Tem vez que o vento retorna de alguma esquina do mundo e traz de volta um resquício pra ser respirado fundo... E ele inspira o passado, quase inodoro, calado, na escassez de seus cheiros...

IV

O tempo esculpe em seu rosto com seu formão afiado: sangas, arroios e vergas... E o paladar vai perdendo, janeiro atrás de janeiro, algo em sabor rotineiro ou mesmo aquele tempero que transcendeu em desgosto...

O vinho perdeu as notas, se fez amargo e azedo... O homem foi degustando suas carências e medos! E o apetite de outrora, cada vez mais, foi embora deixando a vida sem gosto!

V

Ninguém espera de fato! As mãos de ganhar a vida vão deformando carinhos... A pele vai ressecando, curtida de sóis e luas; um mapa de antigas ruas por onde a saudade nua perdeu o desiderato!

Não sabe a razão pra isso, nem mesmo o que lhe concebe, mas não faz nenhum afago e, há tempo, não os recebe! Portanto, vive os seus dias com mãos inquietas, vazias que nem se lembram do tato...

VI

Num momento é falecido! Não vê, não ouve, nem sente aqueles que lhe carregam... A sua estrada findou-se, não há desvio para os lados; e o seu trajeto, riscado, fará que seja lembrado ou, para sempre, esquecido!

Quem deixa algo pro mundo fica num pouco de afinco, talvez num novo sentido pra quem perdeu outros cinco! Essa nova trajetória uns chamarão de memória, outros de Sexto Sentido!