O Meu Terrunho
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Eu tenho um pago terrunho E motivos pra voltar.
Eu vivo de nostalgias, Eu sofro de insônias largas, Tenho ânsias de regresso, E uma inquietude constante Que amargo dentro do peito, Com solidão de tapera.
Ás vezes, sonho acordado, E os meus olhos marejados, Carregados de saudade, Vislumbram tempo e distância Nos alo largos da estrada...
Abro picadas estreitas Á sombra de um mato grande, Cruzo várzeas e canhadas, E vou matar minha sede Na beira de alguma sanga.
Costeando a cerca de pedra, Bem na sombra da figueira, A casa velha da estância, Abre um sorriso de campo No escancarar das janelas.
E em torno, o meu pago...
Meu pago enfeitado de sangas, Onde se banham a gurizada nos verões, Entre as barrancas de avencas e de musgos.
Enfeitado de pomares agrestes, Onde o sol se derrama na casca amarela Dos ariticuns, das guabirobas, Das laranjas e das bergamotas.
Enfeitado de jardins que ninguém plantou, E que se perfumam a alecrim, Á jasmim-manga, a flor de trevo.
Enfeitado de coxilhas, cerros e canhadas, Grotas, trevais e flechilhas, Pastagem que se perfila até onde a vista alcança, Tropilha pastando mansa, na volta de uma restinga...
Encilho... Recorro campo e banhado, cruzando a várzea encharcada, Passo a trote pela estrada no lombo de uma coxilha, Um cheiro de maçanilha perfuma toda a querência, Confunde o pasto na essência pela lonjura estirada Léguas de campo e invernada no entardecer da existência.
Desencilho, aguada boa, Largo meu pingo pra o campo. E o que antes era quietude como murmúrio de sanga, Aos poucos quebra o silencio da calmaria da tarde, É o disparar de uma eguada retumbando no varzedo, É o pago ganhando vida em cada cena que vejo:
O tropel das patas das cavalhadas soltas, O entrechoque dos cornos, os mugidos roucos, A inquietude alarmada dos quero-queros, O grito perdido do tajã, ecoando pelas coxilhas, O balido das ovelhas, costeando a taipa do açude, O berro de um touro pampa, mergulhado nas canhadas, Relincho de um potro xucro, retoçando, no potreiro,
O entono do Batará, repontando no terreiro, O canto do João-Barreiro, sempre na volta das casas, João-Grande, um bater de asas na direção do varzedo, Tropilha de avestruzedo disparando campo a fora, Crianças, velhos, senhoras, um mate recém, cevado, O berro manso do gado num fim de tarde tranquilo, Á noite o canto dos grilos, o lume dos pirilampos, Corrida de um sorro manso, o alarido da cuscada, A tertúlia da peonada contando causos de ronda, Madrugada que se alonga, graxa pingando nas brasas, Um ponteio de guitarra, costeando algum payador, Um verso, um declamador, relato de um tempo antigo, Tempo jamais esquecido, alma de campo e estância, Saudade, ternura, lembrança...
Desperto... Um grilo canta alo largo... Silêncio e recordação...
Descubro, em fim, mil motivos pras longas rondas que faço, Deixei no campo um pedaço, quando parti do meu mundo, Ficou um vazio profundo e minha alma, tapera, Me transformando em quimera, num ser noturno e sem rumo!