Memorias do trem
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Na algibeira grande do tempo Temos lembranças guardadas, Em fotografias amareladas, Dos caminhos ao pé dos montes, Das águas puras das fontes, Nas verdes matas da serra, Dos trilhos no lombo da terra, Que rasgam os horizontes.
Enfrentava o vento minuano Sobre o dorso das coxilhas, Cortava léguas e milhas, Tinha a força de um dragão, Alimentado à água e carvão, Com patas de um gigante, Deu garupa ao retirante, Foi a alegria da estação.
Nunca deixou rastros Nem poeira na estrada, Trazia a tropilha puxada, No cabresto de puro aço, Nunca sentiu cansaço, Nem o frio do inverno, Queixo duro igual cerno, Como um bagual no laço.
Do longe se ouvia o berro Ao chegar nas pulperias, No tempo das sesmarias, Vinha mascates a forasteiros, Saíam domadores e tropeiros, Mas quando o trem partia, A estação ficava vazia, Só restavam os cargueiros.
Na aquarela da estação As tardes ficavam largas, As penúrias eram amargas, Pra os andantes que ficavam, Pra aqueles que voltavam, Como um pássaro ao ninho, Cheios de amor e carinho, Das saudades que deixavam.
Se um dia voltar passar O trem sobre os trilhos, Acordará os caudilhos, Da serra, pampa e fronteira, Pra empunhar nossa bandeira, Que o tempo fez escombros, De pala hasteado nos ombros, Serei um sentinela, na porteira!