Na Presilha de Um Cabresto
É sempre assim... Decisões são tomadas Em consulta com a razão, Mas a vida Sempre será regida Pelas leis do coração!
...O tropel da evolução Trouxe em sua poeira A conclusão da pesquisa: “ - Num momento de apagão A geração de energia É o que o país mais precisa!”
Assim, Decidido estava, A hidrelétrica futura Barrará o velho Costeiro Bem no Passo do Maneco!
Maneco, índio correto E fiel cumpridor da lei, Vizinhava o rio Costeiro Em sua “garra” de terra Já pela “quarta-do-coice” De uma vida tranquila.
Fora parido ali mesmo, No velho rancho barreado Que tinha o rio num costado E logo adiante a divisa. Chacreiro de mínguas posses, As quais herdara da mãe, Que o pai, morrera na guerra Defendendo o “chão maior”.
No mais, Singelos pertences: Um arado Pula-Toco, Alguns guaxos, Um azulego estreleiro E um rádio caixa de tábua, Que à noite ouvia “as notícia” À luz de um velho candeeiro.
As suas penas e sonhos Eram sorvidas pra alma Na sombra de uma figueira, Centenária frente ao rancho, Onde mateava sem pressa
Cumprindo o encargo de só, Pois o traiçoeiro destino Não lhe dera “obrigação”*.
... E foi pelo velho rádio Que ele escutara o seu nome No mais profundo lamento. Estava entre os alagados Que seriam atingidos Com o futuro empreendimento.
Vieram levantamentos, Estudos, desapropriações E cálculos de indenização, Mas jamais foi avaliado O amor do homem ao seu chão!
... Maneco passava as noites Velando a luz do candeeiro Sem entender o porquê, Seu chão, que ele amava tanto, Tinha de pagar o preço Pra levar luz aos povoeiros.
Seu ímpeto de Gaúcho Não permitia chorar, Mas, a lo largo, Quando bombeava ao futuro Uma nuvem de tristeza Vinha nublar-lhe a visão.
Não houve proposta honrosa Que mudasse a decisão. Apesar de índio pobre Não havia soma em cobres Que lhe tirasse da terra Que amava com devoção.
E com o tranco dos dias O viço dos seus pesares Aumentava mais e mais...
No chão em que ganhou luz Queria apagar a vida. Passeava sob a figueira Namorando um galho forte Pra agüentar sua despedida.
Cumprida a formalidade Desocuparam as terras, Apenas a do Maneco Não se encontrava tapera.
Chega o dia do despejo E a lei, em sua opulência, Encontra o velho Maneco Sem ofertar resistência. Na presilha de um cabresto Pendulava num galho forte Da centenária figueira, Com os pés arrastando na terra Que amara a sua vida inteira!
É sempre assim... Decisões são tomadas Em consulta com a razão. Mas a vida Sempre será regida Pelas leis do coração!
*Obrigação: família, mulher e filhos