Linha Mariano Pinto
Sou do tempo em que ir ao povo Se levava dois, três dias. Quem ia aqui do Angico, Sesteava no Velho Nico E pousava na tia Maria.
Os homens iam a cavalo E as mulheres em tilbre aberto. O banhado das corticeiras Foi o sustento do Altivo Tirando gente do barro Porque o peludo era certo!
Mas esse tempo passou, Vieram estradas, pontes E conduções a motor. Melhorou pra todo mundo, Menos pro gringo Altivo! Foi nessa época Que aposentaram tilbres e aranhas E surgiu cá na campanha O expresso coletivo!
Pra nós aqui do Angico A melhor coisa do mundo, Que dirá pros lá do fundo Do Rincão Mariano Pinto! A linha Mariano Pinto
Não só encurtou distâncias, Mas trouxe algo de novo, Mesclou a vida da estância Com a nova vida do povo.
E o cara chata botava As suas patas redondas No lombo firme da estrada. No bagageiro, bagagens, Nos assentos, passageiros. Os que embarcavam primeiro, Que o resto ia em pé Povoando o corredor.
Aquilo era uma quermesse, Um que falava de domas, Outro da febre aftosa Que anda rondando o rincão. As comadres bem pintadas, Afinal povo é passeio, Proseavam em fofoqueio Como se fosse um salão.
E um borracho que embarcara Numa aguita das raras No bolicho do Nedi, Vinha mal e incomodando, Caindo e se levantando Até o Jacaraí. E nessa, perde a parada Pra botar o pé na estrada De volta ao Capivarí.
O cobrador bonachão, Que era um amigo de todos, Não exigia bilhete De algum que era mais “ermão”, Pois tinha feira sortida E a boia era garantida: Milho verde, melancia, Bolo de nata e feijão!
Um reclama do governo, Outro da falta de chuva E um cheiro de gamerial, Porque era braba a saúva!
Apesar de proibido, O bagaceira Tinico Destampa uma canha pura. Ninguém reclama do ato, Pois o valente mulato Leva um trinta na cintura. E o motorista vaqueano la destorcendo guidão, Pé na tábua, pé no freio E um horizonte fronteiro Pra cenário da visão!
É o coletivo rural O encontro natural Dos que vivem na campanha. Nele se conta lorotas, Nele se conta derrotas, Nele se conta façanhas!
Vi estourar um bochincho Quando a polícia da estrada Achou no compartimento Quinze quilos de capincho. E agora, a carne é de quem? O proprietário da caça Não se acusara pros praças E não prenderam ninguém.
E assim transcorre a vida No interior do coletivo Em convívio genuíno. Parece uma grande festa, Parece ninguém ter pressa De chegar ao seu destino.
Na linha Mariano Pinto Foram atadas carreiras E negócios de importância. E as chinocas mais faceiras, Como num baile de rancho, Flertavam com peões de estância. E desses flertes campeiros Muitos viraram namoro, Muitos ataram em noivado, Muitos findaram em casório. Que o diga o compadre Honório Que se casou com a Do Carmo!
Chegando ao Mariano Pinto Tinham pouso garantido Motorista e cobrador, Afinal a linha é longa E o cara chata precisa Dar um alce pro motor!
Nem bem o sol despontava E o coletivo rural Rumo à cidade partia. Se ia ligeiro ao povo, Sem sestear no velho Nico, Sem pousar na tia Maria!
Já na primeira parada Três potes de goiabada E um tambo de leite momo. - Deixa pra mim lá no povo! Gritava da porta um taura. - Vai tá esperando a Rosaura Lá no cabeça de ovo!
E os índios que embarcavam Na estância da Guajuvira Vinham de barba aparada Pra se apear meia quadra Da tasca da tia Elvira.
Um coletivo rural É a vida como eia é, Uns com sonhos discretos Sentados em bancos retos, Querendo o que Deus quiser. Outros com sonho matreiro De ser um grande estancieiro, Mesmo viajando de pé!
E as rodas levantavam poeira, Perfumadas fofoqueiras Davam o tom do murmúrio, Nem o calor do motor Acalentava as friagens Daquelas geadas de julho!
E ele entrava na cidade Trazendo gente do campo, Dinheiro de ganho honesto E sonhos de vida buena. Vinha trazendo pavenas Que independente da idade Tinham as ganas rurais Da tal de felicidade.
Por isso que quando vejo Um oito patas rodando, Levando e trazendo gente Do campo pro pago urbano, Relembro os tempos do pingo, Dos tilbres e das aranhas, Riscando nossa campanha, Rumbiando rumo à cidade.
Pois esse tempo passou, Só o coletivo que não, Ele segue todo dia No lombo da carreteira Do Alegrete ao Rincão! E é verdade, O coletivo rural Resume a vida do campo!
E é saudade, Quando não pago bilhete Ao cobrador bonachão!
É a mais pura realidade, Que na linha Mariano Pinto, Lhes falo com pura emoção! Por destino ou precisão,
Pra falar bem a verdade, Embarquei meu coração!