Meu Galpão ao Meio Dia
Mansas corujas descansam Nos cernes dos contramestres E as horas até que parecem Se espreguiçarem pacholas Quando as cigarras manhosas Orquestrando nostalgia Anunciam meio-dia À sonolência dos catres
Um fogo quase apagado Fumaceia o galpão quieto... Os cavaletes imitam Tropilhas de bem domados E escoram arreios suados Da lida findada há pouco... Que o couro cru sobre um toco Ficou por ser desquinado...
Guarda a chaleira de ferro, A trempe, sobre o borralho, Tisnada a muito trabalho De fogo e de labareda Que pintou de negra seda, Bruxoleando picumãs, As paredes da manhã Que dão o tom desta cena...
O laço dorme em rodilhas Na suspensão das armadas E um rádio fala por nada Chiando e gastando pilha Noticia que a família Do seu Valêncio Trindade Convida toda a irmandade Pra missa de 7 dias...
Um par de botas num canto Aguarda o outro de esporas Pra cantilena sonora De roseta e papagaio E o velho cachorro baio Se coçando incomodado Se vira e troca de lado Que pulga tem de balaio!
O cheiro do criolin Mesclado a arreio e fumaça Parece até que abraça A atmosfera na ocasião... Pairam inertes nesse chão Inconfundíveis lembranças Que aprendemos desde criança, Qual o cheiro de um galpão!
Um par de rédeas balança Pendurado com o bocal... Mango, látegos, buçal Cabresto e um bom maneador... Cada qual com seu valor E serventia campeira E o suor das barrigueiras Vai aliviando o calor...
A cuia jaz escorada, Entre a parede e um banco, E a erva já sem barranco Lembra que o mate cevado Quedou-se há pouco lavado Na comunhão dos campeiros: Que os rituais galponeiros Conservam um quê de sagrado!
A sesta vai a lo largo Da paisanada na estância E até as vacas mansas Na sombra das Sina-sinas Parecem ter nas retinas Um tempo antigo em remanso... E a contemplar não me canso O que o galpão me ensina.
Vai muito além do silêncio Vai muito além da estampa Meu galpão, marco de pampa, Fortim de alma e poesia É a essência que irradia O próprio campo estrivado Declama versos, calado, Meu galpão ao meio dia.
E até o pelego branco Num cepo de corunilha Lembra a herança caudilha De um tempo que não se apaga Porque revive na adaga Que descansa sobre a lã A esperar um amanhã Pra desembainhar uma paga...
Que a garrucha é testemunha Do que a adaga serviu Nos tempos que tinha fio E a bainha era adereço... E todo o fim é o começo Pelos meus olhos inquietos Ao desvendar alfabetos De escritas que não tem preço.
Por isso que não sesteio E nem me entrego pro sono... Meus olhos guardam o outono, Guardam verões e invernias Pois aprenderam manias Nas primaveras do meu freio Traz poesias no esteio Meu galpão ao meio dia!