Eu, Também Rio Grande
Pra mim, O sol não desenha silhuetas do galpão Quando a noite engole o dia. A boieira não se esconde na coxilha E nem os pirilampos povoam de brilhos As escuras noites do Sul.
Não há cavalhadas pastando silentes Num potreiro grande quando a manhã se vem. Não há relinchos de potros Nem gritos de valentes torenas Na lida campeira de deixar manso o bagual.
Pra mim Não há garras deixadas num canto Nem cavalos de lombos suados... Não há porteiras, alambrados Nem tratores e arados Sulcando o solo fecundo Para tirar, da terra, o pão.
Não há mãos calejadas de fazer cordas Quando a chuva impede o lidar na mangueira. Não há rodeios, castração, ordenha, bicheiras Nem laço no ar espichado Em tiro certeiro nas aspas de um boi.
Aos meus olhos, Não há verdes se desdobrando Em canhadas, planuras e coxilhas. Não há flor azul de aguapé Nem campos cobertos de branco e amarelo Da maria mol e maçanilha.
O meu dia amanhece ao som de buzinas E segue constante no vai e vem agitado, De quem passa, apressado, pra vida ganhar. Os prédios dominam as paisagens E a vista não se perde ao tentar mirar horizontes. A paisagem que vejo é cinza – Muitas vezes, doentia – Na sombra obscura de prédios Quando a noite engole o dia.
Pra mim, O campo é distante E o universo rural a mim chega Nas fotos do Streliaev Em poesias do Anomar Nas esculturas do Vasco E gravuras do Berega Que adornam salas e gabinetes Acompanhadas, algumas vezes, Por diplomas emoldurados, Que também são resultados De muita fibra e grandeza.
Sob meus pés, Não há barro de mangueira, E sim o duro asfalto de uma vida urbana Tão valorosa quanto aquela do interior. Este universo de concreto, De aço, pedra e cimento Faz parte do mesmo torrão Que nós chamamos de pátria. De meu talento e suor, De meu empenho, valor E trabalho abnegado Também são feitas nossas façanhas, Também é feito nosso Estado.
Sim, tenho outro costume, linguajar, E um outro tipo de lida... Mas na cidade agitada em que vivo Também carrego comigo O atávico sentimento de amor por este solo. O chimarrão que eu sorvo Em parques desta metrópole E a bombacha que eu uso, Com todo o garbo e orgulho – Ainda que só nos setembros – Reafirmam o respeito Que carrego dentro do peito Por quase 300 anos de história, De peleias, lutas e glórias E também alguns tropeços.
Admiro o trabalho do homem campeiro Mas não recordo tropeadas que nunca tropeei Meu universo e tempo são outros. Sou deste clichê chamado “selva de pedras”, De horizontes estreitos, De ruas cheias e altos prédios, De carros, buzinas, fumaça... Mas sou desta mesma raça Que tem brio, força, nobreza... E no meu coração, com certeza, O telurismo também se expande Porque, sim! Também sou gaúcho Porque, sim! Também sou Rio Grande