Lírica
I Um mundo de silêncio e pedra bruta Jazia sob as nuvens carregadas; No sangue, que verteu de tantas lutas... Na terra, com suas fontes esgotadas.
As almas não queriam mais os corpos, Os corpos rastejavam nas estradas... E o grande vendaval dos sonhos mortos Varria o que restou das alvoradas.
O pampa tinha o mundo nos seus ombros, Seus filhos vasculhavam os escombros Plantados pelos deuses da mentira.
E quando o céu caía, rumo ao nada, Do fundo de uma terra devastada, Surgiu, feito oração, a voz da Lira!
II A Lira sussurrou sons de esperança, E viu o amor, por trás das faces duras; E areias de furor e intolerância Tornaram-se castelos de ternura!
A Lira retumbou seu canto agreste, Pulsou nos corações enregelados; E o mundo, soterrado em tantas pestes, Voltou de seus porões, ressuscitado!
Assim, a Lira impôs a sua dança... As almas, esmagadas por ganância, Voltaram a ver Deus além do abismo.
E a terra, que chorava tantas covas, Tornou a suspirar suas boas novas Na força inquebrantável do lirismo!
III
É lírica esta flor que desafia A lógica das terras devastadas; A fé, que alimenta de poesia A fome dessas almas retalhadas.
O riso da criança, que ainda brinca, Semeando paz na mãe desesperada; Espelhos de uma essência que não trinca, Quais sejam os motivos e pedradas.
O pampa renasceu, sorriu de novo, Pintando a flor do mundo, a flor do povo, Mostrando que a ternura vence a ira.
No fundo de uma terra devastada, O homem derreteu suas espadas E a pena eternizou a voz da Lira!