Romance do Boleador
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Num domingo de mormaço Lá na fazenda do passo - Na cancha do velho Juca Corria a égua Mutuca Com o zaino do Bonifácio.
Indiada mal encarada Se entrevera no jogo E algum gaudério - no fogo, Largava alguma piruada... A cousa se complicava Despôs...calmava de novo.
Trezentos metros de cancha Numa fervura de gente! E o sol de janeiro quente, Coloriando a terra nua, Multiplicava chiruas Lindas delgadas vistosas, De tranças negras - sedosas, Tapando pares de peitos, Boleando ancas com jeito Daqueles de cortar prosa!
Dinheiro grosso rolava No pano verde da grama. Nos pelegos - nas badanas, E até mesmo no chão puro! Algum ventana - já duro, Malacafento e safado, Depois de tudo empenhado Jogava até a própria china Pois já lhe era a ranzina Há muito um fardo pesado!!
Naquele fluques de gente Chegou-se assim de carancho Vindo de “Deus - sabe donde” Um índio alto-troncudo, Cujo flete - macanudo, Não passou despercebido!
Trazia sobre a garupa Uma chininha morena De arrancar nacos de olho!
Ah! Se era linda a pinguancha... E sobre o meio da cancha Boleou a perna - o estranho! E depois... com muito esmero De quem segura uma jóia, Boleou da china - que rindo, Postou-se ao lado do flete!
Pra quem mirava de longe... Lhes digo - choveu cochichos: ...Mui bem servido o gaúcho!
E por saber que assim era, O índio olhava de entono Orgulhoso por ser dono - De dois trastes de valor! Não carregava armadura Nenhuma faca - ou pistola Mas em volta da cintura Sobre o pardo da guaiaca, Pendida em tranças bem feitas Sobressaíam três pedras Acolheradas - no mais!!
Nisso um grito de “abra a cancha” E um murmúrio dos dois lados... - O Zaino vinha puxado Já a rumo do partidor!!
Deu-se aí que um tal de Bino Meio gringo e castelhano, Foi resvalando um tobiano Pros lados da chinoquinha Que chegara com o estranho!!
Há muito que o gringo tinha Fama de maula e meloso, Ordinário e perigoso No tratar com china alheia!
Se era achegado - o maleva!
Encostou junto da prenda Que bombeava de soslaio... A peitarra do lacaio Procurando sarna grossa!
Los diachos - que coisa feia!
O índio das boleadeiras Sorro velho acostumado A topar qualquer trançado Viesse do lado que viesse, Foi-se chegando...chegando, Já co’a manicla - na mão!
E disse pro garanhão - O tal Bino castelhano Boleia a perna - paisano... Fica melhor - cá no chão!!!
La fresca - o gringo não era “De engolir sem mastigar” num prisco - deu-se o bolear peleou do ferro e se veio!
Se era achegado - o pavena! Mas mui lindaça a morena... Valia a pena tentar!!
Vá escuitando...
E assim como dizia... Se veio e já carregou Num pontaço que passou Soprando o imbigo do estranho!!
Mas amigo...se lhes conto Eu de mirone - bem lembro Quando a soguita zuniu ...E aquele bárbaro assobio das bolas cortando o ar!!
Depois... o tombo...e o gringo, Estatelado - pateando No meio da polvadeira!
E o taura das boleadeiras... Mais uma vez - carregou!
Ninguém do povo acudiu! Defunteou - e sempre quieto, Numa calma impressionante Juntou co’a china e num upa Montou no flete e partiu!
E o bino - morto - estirado Lá sobre o meio da cancha, Num arroio de sangüeira Lá mesmo ficou plantado!
Nenhuma vela - uma reza, Somente uma cruz pelada Sem inscrição e sem flor!!
Tudo porque - certo dia, Num domingo de carreira, Se meteu à cavaleira Com a china do Boleador!!