Alma em Verso
Poesia

Regalo a seu ze das lavras

Loresoni Barbosa

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Ecoou ausência nas tropas, nos prados, pelos bolichos... - Saudade pra quem fica, esperança pra quem vai amiudando a distância, sufocando as ganas potras c'oa poeira d'outro lugar.

Passaram-se as datas, também enfrenei meus potros. Chegaram meus sonhos, então ganhei meus caminhos...

Em cada estrada que andei, lembranças e mais lembranças, na rigidez dos moirões, na serventia dos fletes, nas romarias de gado, em cada paisagem viva vivia seu Zé das lavras...

- Quem leva um sonho a cabresto pleiteando changas pra lida, merece enfrenar a paz sem esporear ideais sem palanquear a vida...

Dia desses, noutra estância, quando a sombra espreguiçava a palidez da mangueira, cheguei, embretando a tarde, buscando o calor de um mate pra mitigar minha alma sedenta por ser andante, ressequida por silêncios.

Quando entrei no galpão, vi a silhueta de um monge recostado num porongo na calmaria dos dias... - Senti uma taipa na goela!... e a voz embargou pra um "buenas".

Melena, aparada de golpe, olhar sereno de outrora e, na calidez do adelante a independência da estrada.

Seu Zé, venceu os caminhos, o tempo, os sonhos, no cio. Achou o amor que faltava pra alumbrar a madrugada do seu coração vazio, a prenda enfeitou seu rancho e um sorriso de anjo lhes foi presente de Deus.

Não mais a falta de afago não mais o sono na encilha, lhe sobra , agora, ternura no aconchego da família, e a esperança de um dia ser um centauro de luz, cabresteando potros alados além da estrada real...

Vi um perfil de centauro cruzando as vãs pradarias, pelo fulgor das tragadas sonhos eram malas pra ida, pelo tordilho a cabresto a indiferença pros dias e nas botas garroneiras indagações d 'outros pêlos.

Quem ganha a vida c'oas rédeas, tem nos bocais seu destino! Talvez por isso, o teatino repontou o sol e se foi, a campear n'outros baguais pouso pro basto orelhano...

- Dia desses, lá na estância, quando a boieira embretava a aurora e seus alaridos, seu Zé puxava um tordilho contra o palanque da frente.

Melena, aparada de golpe sob o sombreiro tapeado, o barbicacho entre as rugas - herança d'outros invernos - e os braços qual cerne "bueno" passeavam no lombo duro do bagual ensimesmado...

Depois, de bem aprumados, vi um perfil de gigante desenhando no horizonte claves de sol com corcovos.

O coração do ginete batia no contrapasso dos cascos, o coração do bagual no ritmar das esporas... - Qual dos dois foi mais pachola? - Qual dos dois???

As rédeas vergando o braço o rebenque alucinado, olhar atento às orelhas focinho apartando o pasto, adiante, um sol de setembro, flores disformes no rastro. - Bufos e gritos, são prosa na rudez desse dialeto... Quando o sol enfurnou-se na mansidão do poente, vi o centauro sumir-se na retidão do alambrado.

O que procurava seu Zé? O que o fazia prosseguir? Calado, conformado fazendo dos sonhos pobres bons motivos pra viver.

Crédito da fonte: Lorensoni Barbosa