Recomeço de um Ginete
Um par de esporas e um manguito debochado, Um santo sob o sombreiro - por vezes mui preocupado – De prata a rastra oriental reluz no seu tirador, E dois cavalos de muda garantem o estradeador. Carrega lutos e golpes da vida já desnorteada, O corpo suporta as dores, a alma o vazio da estrada, O andejar não é por gosto, tem seus motivos e fatos, E aporreados de renome, relincham nos seus retratos.
Saudade! Coisas do peito pra dentro - sortilégio apenas! - Não pinta prata na mesa, nem tiro o frio dos poemas, Não se plantam sentimentos, tão pouco amor nas calçadas, E não se domam lamentos nem com esporas travadas.
Destemido! Eternizado nos versos de martin fierro, Homem de campo e cavalo e sotaque de fronteiro, Destorcido na payada e na guitarra um doutor, Não sei porque tantas ganas de ainda ser domador.
Um dia fiquei sabendo dos lamentos a razão, O desapego pra vida e as coisas do coração, Tivera filho e mulher, gado e campo bem cuidados, Tropilhas de um pêlo só, sonho e galpão bem quinchados.
São retratos do passado, lembranças - rancho tapera - A saudade se fez presente e ele esqueceu quem era, Largou o corpo no mundo e a alma ficou à espera, - se a vida é em branco e preto, pouco importa a primavera. -
Determinou-se o gaúcho, - acabou a judiaria! - Viver por viver somente ou honrar a morte fria? Assim propôs a si mesmo: se é p’ra ser desse jeito, Que ao menos seja à cavalo - te falo,que lindo fim! -
Se foram sonhos futuros, desse taura desgraçado. Que só enxergava motivos para andar mal montado, Se foi o homem e a estância, como se foi a parelha, Apagou-se todo o brio daquele que foi centelha!
E ganhou novo destino; morada pelas estradas, Loucaço meio teatino - paladino das palavras - Inocência de menino - coragem dos espartanos - - pra perder só tinha a vida, sem filhos, mulher nem planos.
Mas a orfandade da vida, pariu um novo ginete, De tanto querer não ser, se viu o de melhor “suerte”, E a história que lhe fez conto, também lhe fez cantador, E abriu o peito cerrado pra receber novo amor.
É assim que age o tempo, Sem tempo pra judiaria. Quando o amor fala mais alto A tristeza silencia, Pra ouvir a canção dos filhos E o mate que se anuncia. Servido por mãos de fada. - é a vida que principia!... -