No Vazio Que Silencia as Almas
Os olhos da madrugada vêem bem mais do que eu supunha pensar... Nem a lua, nem as estrelas, nem a luz dos pirilampos são necessários pra ela... A madrugada é mistério! É um misto de calma e medo no vazio que silencia as almas inquietas, nas noites de solidão...
Tomo um mate e me perco em pensamentos... A água chiando num conversar sem resposta... O fogo pedindo a lenha! Pra continuar vivendo, pra não silenciar comigo! Eu já não sinto as brasas e me consolo com as cinzas...
E a madrugada me olhando... Sabendo tudo de mim! Não deixa eu ficar solito, não deixa eu esquecer quem sou. Se ao menos me desse trégua numa noite apenas! Eu montava no meu pingo, dava rédeas à “suerte” e me bandeava daqui!
O cusco, talvez, também perdido em lembranças... Nem percebe que me acorda quando resmunga aos meus pés... Aproveito e encerro o mate. Matear e enfrentar solito o olhar da noite escura, não é pra qualquer vivente. Precisa ter pouco sangue!
Eu tenho sangue demais! Tenho campo demais nas patas do meu cavalo! Tenho as botas lanhadas de suportar os pranchaços, das muitas peleias brabas das quais saí sempre vivo! Trago nas mãos o retrato que o meu passado revela...
Sempre fui peão das estradas... Nunca firmei morada depois de um dia de lida. Não nasci pra botar soga na minha Alma de sonhos...
Chego cedo, acerto o serviço, faço tudo no preceito, não deixo nada pra trás... Só peço assim no mais, um cantito para o pouso, pra ruminar pensamentos tomando uns mates amargos... Então eu saio de novo antes do dia raiar!
Sou filho de castelhano com uma gaúcha morena... Prenda criada em galpões, criada da “moça-sinhá”... Caiu nos braços do “hombre”... Foi uma noite de amor! Mas foi de encanto somente... Quem tem mais de duas pátrias não vê porteira por diante!
Cresci guaxo pelos campos... Não me contaram a verdade, dizem que a tal fatalidade foi quem levou minha mãe! Por certo não suportando viver sem o seu paisano... Preferiu partir pra sempre, a ter que criar sozinha um piazito manhoso...
Me fiz homem no lombo do meu cavalo! Nunca levei um pealo nestas histórias de amor! Ninguém me botou cabresto! Ninguém me espera na porta, já com o mate cevado num ranchito enfumaçado... Só tenho asas e sonhos que não encontram lugar!
Mas quem precisa de amor? Se todo o final de dia, tem a mesma companhia, em cada estância que esteja? É quando o céu escurece, que a madrugada aparece consumindo sem pudor, qualquer ensaio de amor que os meus olhos atraem...
Esta é a minha sina de andejo sem morada! Me encontro cruzando estradas que o destino padrinho me reservou quando piá! Me perco à luz das auroras... Sou mais um amante dos sonhos, que se enredou para sempre nos braços da “Madrugada”!
Poema classificado no 2º Festival de Poesias Gaúchas “Querência Amada” de Rolante/RS – Setembro/2011.