Entre as rendas dos vestidos
A mão que costura os panos também recorta da história os remendos pendurados na imensidão da memória. Cada linha que alinha dois panos e duas faces conhece a lei das fronteiras, vai e volta pr'onde nasce.
Entre as rendas dos vestidos, assim também eu me vejo contrabandeando alinhavos, alimentando os desejos. Quantos botões descasados abraçam o meu descanso pra depois mandar a conta no lombo de um passo manso.
Se refugo em cancha reta, quando a costura se entorta, é pra não perder a linha que toda a tesoura corta. Se o forro traz o recado das bandas lá do interior, ainda sem arremate vou pespontando o amor.
Costurada em crua estampa volto a ser ponto no fim, em cada barra do dia que foi cerzida pra mim... E depois que a noite chega e se debruça nos muros, o breu veludo me abraça na penumbra do escuro.
Linha vai e linha vem juntando faces afiadas, contrabandeando ciúmes de alguma flor encarnada. Na cor da estampa vermelha se destacam rosas brancas e a tinta tinge o vestido que vai deitar-se nas ancas.
No balanceio da agulha que nunca prega o botão, eu vejo cair as sobras das tolas rendas no chão. Também eu fico caído junto à beira da calçada pela falta de coragem de revelar-me pra amada.
Por isso vejo os tecidos em camadas sobrepostas rodopiarem na sala no ensaio de mesa posta. A quem cabe a contradança neste bailado especial? Serão aos tais coronéis, será a um reles mortal?
A agulha fura o pano, mas nada de sangue vivo. Somente a marca que fica sinalizando o perigo. Sei de lanças sobre o peito, sei de dores e de marcas, mas não aceito o destino em dois goles de cachaça.
Vou resolver se costuro um amanhã de cambraia para te dar, costureira, um rico pano pras saias. Se tu quiseres eu bordo, no meu verso mais bonito, todas as rimas que brotam entre as rendas dos vestidos