O cheiro da Noite
I
Extraiu dos matos a fragrância casta respirando ventos em lufadas vãs, misturar com lua repleta e amarela o gosto maduro que habita as manhãs.
Saciar no sereno a poesia noturna que vaga do céu e se deita no chão, enredos de pasto na trança morena que a terra desata com a palma da mão.
O cheiro é feitiço dos tempos ausentes, incenso prendido na luz das cadentes que brota das pedras e corre na sanga.
O cheiro do escuro que a noite regala foi mel entre os lábios da índia baguala que renasce doce na flor da pitanga.
II
Exalam carquejas no véu da canhada, queixando-se em mágoas de flor e ciúme. Vassoura campeira de rudes floradas, namorada guapa de algum vaga-lume.
Perdida a fumaça do rancho fraterno, tempero de inverno povoando o rincão, picumã que viaja nas asas de um pala, dormindo em pelegos de olor e paixão.
O cheiro da noite se veste de vinho É um trago mais puro que ofusca o caminho, Derrama-se em tinto rubor de alvorada.
O cheiro da lua embriaga a amargura Na alma de um vago que há muito procura O próprio sentido na cruz de uma estrada.
III
De noite se soltam perfumes de ponchos No céu dos romances de um catre macio, As velas seduzem estrelas prendidas Na luz de um sorriso assoprando o pavio.
Fantasmas de ranchos resmungam nas frinchas de ventos que trazem notícias de chuva, pois a madrugada é uma velha assombrada que deita tapada e se veste de viúva.
O cheiro da noite traz versos guardados Têm longos cabelos morenos trançados É um sonho nublado que mal se recorda.
Ficaram aromas, saudades, ressábios... o cheiro maduro e rosado dos lábios, da noite infinita que nunca se acorda.