A Dança dos relógios
Foi há muito, muito tempo, Ou quem sabe, ainda nem foi...
Muito pó e pouca vista a confundir os olhos Naquela sala antiga, Cheia de sonhos, lembranças e adeus.
Muito tempo transcorrido Por estas longas eras, de lençóis azuis cobrindo os móveis, Sob os olhos mais atentos das aranhas bordadeiras, Que cobriram as janelas com suas rendas bem trançadas.
Sob abóbada estrelada Vive a sina dos ponteiros; Contando histórias de tempos, Que o próprio tempo esqueceu.
Sobre a mesa de carvalho, A coleção de relógios...
Há um antigo de bolso, Com sua tampa de prata. Tiquetaqueando tristonho, Com o seu ritmo lento, Saudades de avôs e netos, De tantos e tantos tempos.
Um relógio de parede Com seu pêndulo dourado, É o guardião permanente dos amores já perdidos. Em seus compassos quebrados Há engrenagens que choram, Quando em silêncio suspiram Pelos seus sonhos partidos.
Quantos relógios de pulso, Dormindo além das lonjuras; Com silhuetas desenhadas Na fina luz de uma fresta. Tão pequenos, delicados, Com mostradores quebrados, Arranhados ou refeitos, Sonham no escuro seus feitos Até a hora da festa.
Sim... Foi há muito, muito tempo, Ou quem sabe ainda nem foi...
Um velho despertador canta e proclama sua ordem: — É meia-noite, senhores. A meia-noite dos tempos. É hora de levantarmos, nos abraçarmos, irmãos! Relógios, todos, acordem! É tempo de contar o tempo, Do que já foi e ainda não.
A alma de um tempo antigo se espreguiça e se levanta... Dá corda nos pequeninos, troca pilhas, troca o tom. Enquanto um tempo menino, mirando além do futuro, Imprime seus tiquetaques em hologramas sem som.
E os relógios se acordam... Dançam acima da lógica. Se abraçam, trocam ponteiros, Correm para o grande salão, Onde um coral afinado de Cucos, cordas, badalos, Cantam as horas que faltam, Para um novo tempo chegar.
A clepsidra chorosa derrama lágrimas puras... Há um feitiço bonito, que abraça todo o lugar. Traz as histórias das eras, Desde os princípios do mundo. Relembra cada segundo, Que o espaço há de contar.
Mas quem contará ao tempo o tempo que foi contado? E quem contará às horas o que ficou no passado? Um paradoxo imenso faz o feitiço quebrar E eu acordo de susto, sem terminar de sonhar.
Eu me espreguiço e bocejo uns pensamentos estranhos. Muito pó e pouca vista aqui no quarto também. O meu relógio quebrado, Desperta, logo me assusto E tudo fica confuso... Estou aqui e além.
No paradoxo imenso, Minha alma se debruça Sobre um altar de loucuras, Que o meu tempo constrói...
E a certeza absoluta Invade o meu pensamento...
Foi há muito, muito tempo, Ou quem sabe ainda nem foi!