Sobras na Ausência
I Um pouquito de canha onde, agora, mergulha um limão seco tresnoitado e cinzas no cinzeiro abarrotado pelas pontas de cigarro, postas fora!
Um relógio pendurado pelas horas de um tempo qualquer, lá no passado, e um espelho curioso, mas calado, refletindo impaciências e demoras!
Duas cadeiras de palha colonial, uma cama grande e rude de casal sem vestígios de corpos, ou calor!
Um sorriso na foto da parede e uma cortina na porta, feita em rede foram cacos que ficaram desse amor!
II Uma tela de Da Vinci na janela rabiscada nos sorrisos da manhã a marca modelar dos dentes dela estampada na mordida da maçã!
Uma sombra espectral sobre o divã, um pires com os fósseis de uma vela e um cheirinho adocicado de hortelã lembrando do perfume vindo nela!
Na parede... Jesus Cristo em uma cruz e algumas réstias de sol fazendo luz sobre a fronte divinal do Salvador!
Um silêncio impregnado de oração e um tapete desmaiado sobre o chão, foram escombros e retalhos desse amor!
III Um abajur de vime, desligado, no guardanapo do criado-mudo e um rádio de três ondas que, calado, ainda tem vozes pra dize-me tudo!
Um calendário antigo, ilustrado na imagem feminina do desnudo e um banco de cepo almofadado num pelego macio... Como veludo!
Um quadro secular da Santa Ceia, outra tela com um lago e uma sereia, desbotados na parede com bolor!
Uma Bíblia no oratório português, rabiscada sobre o salmo vinte e três, foram destroços e marcas desse amor!
IV Seu nome desenhado no reboco por sobre um coração xucro e bizarro e uma aranha tecendo sobre o oco da boca ressequida de um jarro!
Uma capela estilo neobarroco com a Santa Mãe de Cristo feita em barro e o meu beijo lascivo em cada toco manchado com batom, dos seus cigarros!
Um tapete de retalhos sob a cama, E um vaso de antiga porcelana Engolindo a soledade de uma flor!
Um fio longo de cabelo sobre a pia e uma cuia de mate, agora fria, foram vivas testemunhas desse amor!
V Fantasmas preenchendo os seus espaços, desvairados pelo quarto solitário, procurando pelo áudio dos seus passos nesse acústico silêncio do cenário!
Tudo lembra seu cheiro, seus abraços, seus momentos, seu riso e itinerário, são peças que ainda faltam em meus pedaços e as contas que completam o meu rosário!
Por isso já encilhei meu estradeiro, vou me mandar sem rumos, sem roteiros, sem importar qual fim de mundo eu for!
Quero fugir das sombras dessa ausência, fingindo que, talvez, noutra querência não existem mais as sobras desse amor!