Alma em Verso
Poesia

Sangrador

Carlos Omar Villela Gomes e Mateus Neves da Fontoura

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Pulsa um verso dentro da alma Pela artéria da poesia, Onde a vida principia E a folha, em branco, inquieta A inspiração de um poeta... Saudade, sonhos, fervor; Querência de espinho e flor, Que vem brotar desde o peito, Quando um poema enche o leito Pra nascer em sangrador.

Por pouco a taipa não rompe! Por muito a alma é tão plena! Quando a existência serena O pensamento estradeiro E o coração caborteiro Aquietam-se pelo amor... Aquilo que foi pavor, Misto medo e fantasia... Verte pleno de poesia No caudal do sangrador!

A alma não comporta tantas águas Que giram, procurando seus caminhos... Pressionam, inventando redemoinhos Na correnteza incessante de sentir; A taipa não comporta o que há de vir, Tampouco afoga tudo o que é sagrado. Eu hei de compensar cada pecado Que tenha cometido no universo; Na voz cicatrizada dos meus versos, O poema de viver, mesmo sangrado!

Não há represa pra inspiração! Não há limite pra paixão da essência, Mesmo buscando nossa transcendência Honramos sempre nossa geração. Mas a semente que brotou nas mãos Cresceu demais, foi muito além do amor; E da grandeza desse partidor Acordou plena, pra incendiar a vida, Que amanheceu de essência florescida, Vertendo a alma pelo sangrador!

Tivesse tinta no meu verso um dia, Clareava a noite em sua pele escura E coloreava a folha branca em rubra Com o escarlate que me sangra as horas. Não me costurem a palavra agora... Não quero pontos pra estancar sangrias Que não aqueles, junto às Três-Marias, De reticências pra seguir sangrando, Que a alma velha há de seguir pulsando Enquanto dela me sangrar poesia!

Hei de seguir sangrando as minhas dores. Cicatrizado por antigas penas, Curando o que meu coração serena, Sarando as chagas destas inquietudes... Conservarei minhas paixões de açude No vertedouro, muito além das águas, Eu sangrarei meus mananciais de mágoas E tudo aquilo que já me apequena, Pois seguirei a levitar num poema Na alma pura, que curou sangrada.

Quantos fundos de poço desvendados, Quantos tombos e golpes renascidos... Quantas formas ausentes de sentidos, Quantas cores clareando meus pecados! O futuro será replanejado, O passado será meu devedor Se o presente verter no sangrador O passado e o futuro, lado a lado!

Sumidouro, vertedouro, tantos nomes! Tantos jeitos de gravarem tua dor! Mas a alma não tem nome ou sobrenome... A poesia é o ritual que me consome E eu sei bem como te chamo, sangrador!