aquelas Luzes que perdi no dia
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I É uma noite medonha... Muito fria, A que transponho solito... Cavalgando, Meio sem rumo, em trevas, procurando Aquelas luzes que perdi no dia... Parece, quando em vez, estar sonhando, Mas sei que não é sonho ou fantasias, Pois me alerto das pálidas poesias Que o minuano vive declamando. Troteio lento aos meus abismos fundos Como um centauro procurando o mundo Sem sua parte vital de ser humano! Na certeza de ter vida além do fim, Eu continuo a procurar por mim Entre labirintos do social urbano!
II Não culpem minha lágrima que desce Pela epiderme rota do meu rosto De ser a mensageira do desgosto E da mágoa, enfim, que me aborrece! Ela é, somente, um componente oposto Ao mal que a vida sempre me oferece, Pois quando o meu espírito adoece Me umedece o corpo decomposto. Esse pingo d’água que me molha a face Só reflete as dimensões do meu impasse De ter sempre de fugir... E de correr! Ela é, apenas, essência de minhas penas Que também correm, porém bem mais serenas, Pelos rios subterrâneos do meu ser! lll Tranqueio atalhos nas encruzilhadas Que destinam meu trocar de passos, Porém cada seta que anuncia estradas Aproxima-me mais dos meus fracassos! A noite é de caminhos mais escassos E somente o tino pra ditar jornadas! O pingo lerdo pra trotear passadas Não obedece ao leme dos meus braços! Viajante errôneo em confins de trevas, Entre lêmures espectrais... Malevas... Sou outra alma que vagueia a esmo, Girando em torno do meu próprio eu Que, ainda não sei por que, não percebeu Que procura, apenas, por mim mesmo!
IV Nem culpem meu cavalo, eterno guia Em todas as fatídicas jornadas Pelas passadas lerdas e estropiadas Que nunca alcançam minhas fantasias! Ele também é um oponente à estrada A qual insisto, em minhas teimosias, De percorrê-la ao rumo de utopias Que, bem sabemos, não nos leva a nada! Esse pingo de um trotear tristonho Só transporta cargas dos meus sonhos Com todos meus pecados... No selim!
E ainda consegue, por buenacho e tauro, Que eu use a sua metade de centauro Para que eu tenha patas sob mim!
V Os demônios são iguais nesses caminhos, Cada qual com suas sentenças... Seus tridentes... Em seus tapetes de lanças e de espinhos E seus sorrisos sarcásticos nos dentes! Mas eu transponho a tudo... Indiferente... Pois a vida ensinou-me a andar sozinho E me mostrou que o carrasco é complacente Se eu pisar com altivez no pelourinho! Nem mesmo o zaino dá sinais de medo, Pois conhece muito bem esse segredo De cavalgar nas trevas... Absorto! ...Ele um é outro pobre diabo como eu Que, por capricho do destino, não morreu, Mas carrega na alma um corpo morto! VI Porém... Há esperanças nessa noite escura Que me excitam as ânsias de buscar E cada espírito... Cada criatura... Torna-se um aliado nesse procurar! Nessa jornada infame de vagar Eu que pareço plasmas da loucura, Sou uma alma bruta a lapidar As carapaças toscas da procura! Pois espero que nesse andar bisonho Encontre ainda, por detrás dos sonhos, Algum fantasma de luz... De profecia Que ilumine o fado que procuro Ou que me leve a encontrar... No escuro, Aquelas luzes que perdi no dia!