Alma em Verso
Poesia

A Saga das Carretas

José Luiz Flores Moró

15º Bivaque da Poesia GaúchaPublicado em

No princípio... Foram patas de cavalos Que cortaram trilhas pelos campos virgens Transportando rumos e ombreando origens, Pela geografia de um Rio Grande outrora... Foram passos e trilhas dos gaudérios vagos Que afundaram o lombo verde desse pago E sementaram covas no cruzar de esporas!

Depois... Acarreta surgiu chorando léguas Buscando os horizontes mais distantes E se tornaram, cada dia, mais constantes Na estampa sertaneja das lonjuras... Foi nesse camarote xucro de madeira Que o progresso da pátria brasileira, Partiu, soberbo, para nova arquitetura!

E vieram rodas... E mais rodas... O ferro do trilho, deitou sobre o dormente, E invadiu os campos, de repente, Diminuindo suas distâncias, seus espaços... Com leves rabanadas de rangido e graça, Surgiu o trem sobre as rodas de fumaça, Qual uma centopeia com o lombar de aço! O peito das coxilhas ganhou faixas negras Por onde pisaram as patas de borracha E as rodas, movidas por fluido e graxa Trouxeram pra paisagem uma outra estampa. Então... uma potrada de aço, mal domada, Invadiu a rural inocência das estradas Mudando a cara e o perfil do pampa!!

A roda de engrenagens do progresso Assoprou o bater de asas de um avião, 0 tirou o peão matuto aqui do chão Pra, como pássaro, cavalgar alturas! E as rodas ainda continuarão girando Para que o homem siga dominando O poder sobre si... e as criaturas!

Mas as rodas da carreta... ah!... São eternas! Viverão sempre nas gavetas da memória Ou rodando pelas páginas da história Como molas precursoras do amanhã, E, mesmo esquecidas em salas de museus, Serão o símbolo da humildade que os plebeus Nos deixaram nessa marcha de titãs...

Agora... Quando o mundo roda em “megabytes” Pela virtual carreta das distâncias, Lá num fundo de campo de uma estância Dorme um primórdio sulino que se foi Num esqueleto apodrecido de carreta Que ainda sonha os tilintares das sinetas E a parceria imutável de seus bois...

Mas... Quando o futuro perguntar sobre esse traste No retrógrado conceito dos transportes, A evolução escreverá, no seu suporte De dar história em bicos de canetas, Que o mundo emergiu do antigamente Para a conquista dos cinco continentes Montado sobre as rodas das carretas!