Almas Antigas
Quando me recosto sorvendo um amargo andejo lonjuras, sem sair do galpão...
Meus olhos de campo se viram pra dentro, se alongam mirando pra o fundo de mim, vão se dando conta que o mundo é uma onda, que avança e recua no tempo que ronda e os homens são almas que cruzam a história, buscando motivos de serem assim...
E tudo que é novo reflete o antigo...
Antigo era o tempo “adonde” eu vivi e este tempo antigo também vive em mim... Nas coisas que canto, que sinto e que vejo o tempo é o mais sábio entre tantos andejos, que finge que passa mas nunca tem fim...
E os homens antigos que são deste tempo Imitam os quadros, que a parede guardou... Tal meu velho e sábio bisavô de campo talvez um retrato daquilo que eu sou...
Antigas orquídeas nas velhas varandas E a moça sonhando na mesma janela. Antigo é o moço num florão de pingo, quebrando o silêncio que emponcha o domingo, um cego tateando a luz dos olhos dela.
E os bailes antigos que encantam meu pago de candeeiro, violão, pandeiro e cordeona, Antigas são as vozes destes cantadores que contam romances de antigos amores e versejam saudades quando vem à tona.
Meus olhos de hoje com brilho de ontem refletem silentes a estrada onde andou, num corpo de hoje que oferta morada à uma alma curtida de longa jornada que aos golpes do tempo foi sendo forjada tão rara e antiga que não se dobrou.
As almas antigas estão entre a gente e se reconhecem no jeito de olhar... As almas antigas conhecem do tempo segredos guardados no ser e falar.
As almas antigas são Homens pacatos De gestos suaves e semblantes serenos As almas antigas são Mulheres sábias Que ainda embalam seus filhos pequenos.
E os filhos que nascem das almas antigas por vezes são almas mais velhas que os pais... Outra vez o tempo e seu grande mistério que une os de hoje aos seus ancestrais.
As almas antigas conhecem estradas Cruzaram caminhos fizeram a história... Cometeram erros e acertos na vida e gravaram tudo em sua memória.
Sentiram na carne prazeres e dores Juntando experiências em cada caminho E assim aprenderam a serem gregários, pois a estrada é longa e os dias precários, e a vida judia quem anda sozinho.
Sirvo mais um mate olhando o braseiro E sigo por horas apartado de mim... Viajo de volta ao fundo do tempo Buscando outras almas que vêm de onde eu vim.
E aos poucos entendo esta volta que o tempo reparte em ciclos de ir e voltar Por certo, este mundo que a todos abriga vai purificando as nossas feridas lapidando aos poucos estas almas antigas até que se tornem tão velhas e amigas no rumo que aponta, para o mesmo lugar.