Romance de um Despeonado
Ao despeonar-se, Juvêncio, juntou as tralhas que tinha, Poucas relíquias guardadas numa vida de ilusão: Aperos de montaria, facas de aço, forjadas, Cordas campeiras, trançadas, pra lidar com redomão
Mango com cabo de prata; as nazarenas de doma, Par de estribos de campana, tirador, laço e sovéu, As boleadeiras talhadas no aço da pedra moura, O barbicacho de couro pra segurar o chapéu
Guaiaca de couro cru, coldre e tarca pendurados, Lenços branco ou colorado, conforme fosse a ocasião, Bombacha larga, de favos, cosida por costureira, Uma guitarra campeira pras horas de solidão
Na cabeça do arreio, um antigo boiadeiro, Luzia o brilho da prata como a chama de um candeeiro, Num capricho que pra ele era uma marca e entono; Na cabeçada do freio um florão que era um luzeiro E na peiteira um sendeiro, bem ao estilo do dono
Ademais, alguns tarecos e cousas sem fundamento Que por algum sentimento nunca quis se desfazer: Avios de mate, judiados; o velho cantil de guampa, A tesoura de tosquia, um isqueiro “tira fogo”, Ossos surrados pro jogo que o fez ganhar e perder
Isso era tudo o que tinha por fortuna e capital, Uma vida de trabalho na dura lida da estância Rendeu-lhe pouco ao final: Restou-lhe um corpo judiado do brabo ofício de campo, Marcas profundas no rosto, dores que nunca passavam, Sempre que o tempo se armava parecia que voltavam As fortes dores dos tombos, pelas juntas e calombos... ...Eram marcas que restavam
E tinha marcas na alma, Agudas pontas de lanças transpassando o coração. Alguns amores perdidos no longe da mocidade, Aquela prenda trigueira que enveredou pra cidade E nunca mais regressou; Os olhos de guabijus e o belo corpo moreno, Nos seus lábios o sereno do beijo que ela deixou
Alguns sonhos que o destino não lhe deixou que sonhasse, Os carinhos que comprou jamais lhe deram família; Os romances de ocasião em catres improvisados Deixaram apenas saudades, ( nunca foram verdadeiros), Custou-lhe vida e dinheiro a troco de falsidades
E agora chega a notícia que o patrão arrendou a estância Onde Juvêncio cresceu; Até o campo dos fundos também vai virar lavoura, Onde Juvêncio patieiro e depois, peão caseiro, De posteiro envelheceu
Quando a noite, em seu mutismo, emponcha o campo E o orvalho pinga na beira do rancho, Juvêncio ceva um amargo e dá vazão às lembranças De sua vida na estância que o fez um homem campeiro, E não compreende os motivos da decisão do patrão
Aquele mundo da estância era o mundo do Juvêncio: As caseiras das mulitas, O banhadal onde o sorro passava o dia escondido, De onde arrastou muitas rezes presas nos “ôlho de boi”
Os caponetes sombreados, onde as lebres descansavam E as aves teciam ninhos pras manhãs de primavera; Na coxilha verdejante a exuberância dos pastos, E a vida fazendo graça no retoço da potrada; A terneirada viçosa num início de verão, Eram os olhos do patrão de pupilas dilatadas
E agora vai o Juvêncio campear rumos nas estradas, Os corredores são lares para tantos desgarrados, A força bruta dos braços pra golpear um redomão De há muito tempo mermou; No povo a sorte é madrasta e quando chega um campeiro Vai ter que achar um saleiro e lamber o sal que restou
Um a um os seus pertences passarão a mãos alheias, Desde a tesoura de esquilas ao laço de doze braças, E todas as tralhas que um dia por capricho ele guardou; Tudo o que fez pela vida tornou-se sem importância, Porque sua vida era a estância que o seu patrão arrendou
Muito em breve aquilo tudo vai virar terra arrasada, E mais um campo nativo será lavoura plantada; Chegarão cargas enormes de sementes e pesticidas, É o homem achando desculpas pra matar milhões de vidas
Reinará a monocultura, produto pra exportações, E faltará pão na mesa do Juvêncio e dos peões Que se juntavam em tropeadas, fazendo ponta e fiador, E agora, changas sobradas, disfarçando mágoa e dor
Que Deus, que tudo observa e faz valer a Providência, Em sua benevolência possa amparar o Juvêncio; Que a Virgem Nossa senhora, a Santa Mãe de Jesus, Trace um caminho de luz ao filho desamparado, Estenda o manto sagrado e abra as contas do rosário, Pra aliviar o calvário e o peso da sua cruz!