No Fim... a Poesia
CANTATA: Se eu não sei onde ir Não vou a lugar algum Peço a benção aos Orixás, Rogo graças a Oxum... ... na batida do tambor Num galope vem Ogum.
Preto véio me falou No terreiro de Sinhá: “meu fio tome cuidado C´o que ele pede a Oxalá, Se ele escutá teu pedido Pode a cobra te pica.”
Planto versos, planto sonhos, Na terra fértil que compõe a argamassa da esperança, Dos que andejam desabrigados de luz E que a sombra desnuda de paz, Desnorteia as nebulosas intuições dos passos indecisos, Mas precisos de inconclusos caminhos.
Por isso planto versos e sonhos, Colhendo luas e auroras nos olhos da crença preciosa Que mantém de pé a fé que balança, verga, geme E clama na dor, mas não precipita.
O canto dos sonhos em versos tristonhos Calando a sangria estancada num nó. Emendo e remendo, costuro e suturo a pele com a pele, A carne com a carne, a alma com o espírito... ... seguro inseguro a ampulheta que ansiosa goteja saudosa suas lágrimas arenosas em cegas vertigens. Sem carmas nem nervos, desprovida de sentidos Que embala as emoções, respinga o passo do tempo Que passa mas volta, voltando a passar.
CANTATA:
Iansã ó Mãe do Vento. Iemanjá ó Mãe do Mar... ... canto os quatro elementos pro fogo não me queimar. da terra tiro o sustento pra “mia” fome eu sacia.
Piso a terra, piso a areia, piso a pedra e o capim. Só não piso o broto humano pra ninguém pisar em mim... ... mas quando piso na água da vida não acho o fim.
Não olho pra baixo, mas quando olho, percebo que a terra é a placenta e a cova onde enfim igualmente seremos iguais das desiguais igualdades que nos iguala no pó.
Não levo moedas para o velho Caronte, que espera silente o cortejo final, mas um baú de poesias que nem as águas do Lete o farão esquecer... ... e talvez ao ofício, retorne garimpando palavras no lugar das moedas e improvise uma prosa ressurgida dum verso no leito do rio. Sim, até Caronte implorará por poesias, versos e rimas... ... e quem calado , da pausa infinita que o verbo separa oferta-lhe o silêncio ainda assim seguirás sem moedas cobrar, pois, até o silêncio do improviso prudente é o ouro da paz.
CANTATA: Barqueiro não me espere. Vou ficar no meu terreiro. Não tenho duas moedas, pra cruzar o rio inteiro, se aceitar minha poesia então me sobra dinheiro.
E depois do Estige, invulnerável a tudo mas vulnerou o Aquiles que também embarcou, cruzarei Aqueronte deixando meus sonhos que nunca puderam alcançar seu lugar... ... seguirei o Cocito, deixando os lamentos congelados nas traições das quatro esferas do mau. Para no Flegetonte, afogar no fogo que forja o vale fervente das ânsias valentes que impertinentes me deram vazão para chorar.
É o elemento que arde na brasa apagada por outro elemento embargado na pele escorrendo em suor, que encharca prazer na insistência do vento que insiste soprar. Graça dou pela desgraça que já não achou mais graça da minha graça impedir, cansada pela indiferença do choro que não chorei, logo então me levantei erguendo os olhos na mais suave frequência de aceitação e sossego, embandeirando no mastro a branca bandeira das asas que me deram asas para voar.
Voltarei a ser nascente de água corrente, do olho da terra, cacimba pro mar.