Gaúcho de fato, e me vou
(I) Gaúcho apenas, num fundo de mundo, Num pátio de pátria ao sul que há no sul. Num naco de pampa, um longe que há, que até Deus bendito, por velho e caduco, Perdeu-se do ofíciode, então, vigiar. Um lenço sangradovazado no peito Na cor maragata, e um par de alpargata proseando com o piso na sola cansada Que fala de tudo em colóquio co' chão. Abarba afrontosapor si negaceia As tais vaidades; E lança a verdade Que dói e não sara,vivendo na cara, Morando sincera em cada expressão. Bombacha de listra judiada dos anos, fundilhos puídos de favos singelos, botões em remendo e panos de emendo Preserva-me tanto o cós já surrado. chapéu tapeado,pralana alquebrado Quinchando a cabeça tão cheia de idéia. São estas as vestes que ostento sem luxo, E aqui eis gaúcho, teimando em vingar. (II) Eu fujo, de vez.talvez, por acaso, Em goles que trago de forma muy longa Ardendo a água, quentura do mate, que desce a rampa raspando na goela Enquanto flutuo ouvindo milongas! Aqui eu me encontro;gaúcho do mundo Restrito à porteira num canto sem mapa, Em que até os satélites,de certo,ignoram negando a existência dum resto de chão De nomeQuerência, pedaço de mundo Que eu chamo de lar! No meu galpãozito de toscas paredes Com prego de zinco, que tem costaneiras Não envernizadas, me quedo pensando Em filosofias enquanto mergulho Nas ondas sonoras mudando a estação. Eu giro o botão do corpo do rádio, Que agora, de perto, me faz um costado. Que agora, de perto, me faz um costado. (III) E saltam botando mil vozes da caixa: Há falsos profetas em cultos por cifra, Enão se decifra se crêem, de fato, Nas bênçãos de um Deus. E até Jesus Cristo se torna modelo Em mil propagandas. A fé já não vinga, e, pior do que isso, Desgasta seu viço enquanto desanda. E vai-se o radinho cuspindo os verbos, Estorias tristonhas de campos judiados Por vis pesticidas. Parece outro mundo que há noutra vida... Eum tal de Oriente vê mísseis rebeldes Saltando em corcovos, pisando as pessoas Iguais as formigas. E os poderosos? Sentados no ouro Alheios à crítica,Fazendo política, Corrompem enredosem meio a gritedo, Mentiras e vaias... Enquanto crianças, clamando futuro, Mergulham no escuro, morrendo inseguros na beira da praia. (IV) E aí é que vem um comercial Vendendo de tudo,é um talescambau De futilidades. Denúncia de tiro, Doutores omissos,Barbáries imensas Que tornam a pele blindada aos efeitos De seus arrepios. Não há empatia,não há poesia, Não há rebeldiana gente do rádio. (V) Respiro tão fundo,fugindo pro mate, Travando combates com as próprias ideias. E noto, de pronto, que o mundo mudou. Porém, faço frente na dura insistência E viro Querência pela contramão, No passo trocado, buscando luzernas Na escuridão. E sigo gaúcho, Assim que me faço, Se morro, renasço Gaúcho, de fato, E me vou!