A Casa do Poeta
Não sou poeta! Mora em mim um louco que tem crises de roseira em gestação, girassol em plenilúnio.
Um desses tradutores de ocasos e auroras, guardião do encantamento, aprendiz de vaga-lume.
Não exerço domínio sobre ele, ao inverso: ele versa sobre mim. Talvez seja um doente incurável acometido por noturnas convulsões de fonéticos delírios onde - em transe - manipula a frágil metafísica da poesia rebelada na floreira dos gerânios.
Há noites em que o estranho inquilino se insurge em vigília na insônia iluminada a bater, inconsciente, os tambores do alfabeto pra ordenar o imaginário em sonoras paralelas. Talvez, por isso, eu me veja nos espelhos com auroras nas olheiras e a lua nos cabelos.
Sou a casa do poeta que me habita, desde sempre, com hipérboles lunares e metáforas rurais pra enfeitar a velha casa com floradas de fonemas.
As pessoas me confundem com o mágico inquilino e, por vezes, me sugerem uma rima de estima, um acróstico idílico.
Eu sou apenas a vivenda, o refúgio itinerante onde o vate tece o léxico.
- Ah, meu tóxico olhar de crepúsculos urbanos e a notívaga figura de feições amarrotadas!
Quanta vez, mal adormeço, o poeta me arrebata dos lençóis para o papel que eu apenas interpreto qual escriba extasiado ou fiel escriturário?
Quanta vez sou conduzido pelos longos labirintos do grafismo do impossível? - E ninguém sabe a razão do meu sono insaciável e meus olhos tresnoitados!
Quando eu mal cabia em mim, ele veio, ainda menino, me habitar sem que eu soubesse, que escrever não era vício, mas que a vida exercitava a aurora do poeta que de mim fez domicilio.
Depois, povoou minha adolescência Com nerudas residentes, lorcas sem capa e intraduzíveis maiakovskis. Invadiu os meus espaços com cadernos e rascunhos, numa Torre de Babel em línguas de fogo e pluma.
Eu ando com ele pelas ruas e por seus olhos visualizo e que outros não enxergam: a febril percepção do luar nos girassóis, o minúsculo arco-íris das abelhas nas corolas, o pleonasmo de botões na roseira inaugural, as promessas de amores nos olhares transitórios...
Habituei-me a ser sua habitação e temo que, em breve, ele se mude: As casas também envelhecem e, em mim, envelheceu sua morada: hoje trago, nas mãos, tremor de sinos, minha arquitetura se fragilizou de tanto verso: tenho fendas na memória, vazamentos no olhar. Sei que é inevitável, que em uma noite de luar, eu, enfim, caia por terra e ele mude de endereço!