Eu e o meu tambor
“ Abrindo nossos trabalhos Pedimos a proteção Ao nosso Pai Oxalá Para cumprir nossa missão.”
Retumbam em meus ouvidos Sons de tambores de fogo; Cantarolar de tormentas E naturezas no cio. Um versejar, feito prece Vindo de luas sagradas, A aprisionar labaredas Dentro de algum calafrio.
E de repente o nada... A palidez da saudade, Uma verdade desnuda, Um silenciar sonolento E o sangue correndo lento Rumo a algum canto de mim.
Somos eu e o meu tambor Num universo sem fim.
“ Estou sentado na beira da praia, A lua veio pra me iluminar; Não vejo meu rastro na areia, Nem mesmo sinto a brisa passar, Pois o meu pensamento está Em um barquinho, em alto mar, Rezando para a minha mãe Iemanjá.”
E de repente o eco... Vozes ecoam ao longe, Vão se achegando de leve... Sinto um carinho de vento, Os sons se tornam mais densos; Os olhos fecham mais forte! É outro tempo surgindo E outra vida a falar.
Sou eu, mas não sou mais eu!
Sim... os pés ainda são meus, As mãos ainda são minhas, São minhas saias que rodam Quando me vejo a rodar... Sou eu, mas não sou mais eu! A voz ainda é a minha, Mas as palavras que falo Já não sou eu que profiro, Pois só repasso este eco Das vozes que estão no ar!
Somos eu, o meu tambor e por certo algo maior! Algo maior que o visível, algo melhor que o tangível, Algo mais puro que eu! Somos eu e o meu tambor levando bênçãos de amor A tantas almas sem Deus!
“Caô, Xangô na pedreira, Se apronte pra trabalhar... Obá está na cachoeira, Iansã mandou chamar E Oxum está lhe esperando, meu pai, Aqui neste Congá.”
Agora sou instrumento de energias que depuram... De sentimentos que curam, de visões pra muito além! Agora sou um canal, um guerreiro espiritual Que faz a força do mal se ajoelhar perante o bem!
Somos eu e o meu tambor... minha fé e mais ninguém...
Aos poucos vem se achegando pessoas desesperadas Procurando algum alento pra suas almas cansadas; Um velho buscando vida, um moço campeando luz, E tantas gentes pedindo pra quem nos mira da cruz.
Toda a força do invisível chega às pessoas por mim, Sou instrumento de um sonho, sou o meio de um ritual; As mensagens são passadas, o momento chega ao fim, Junto às almas comovidas pelo amor universal!
Somos eu e o meu tambor... minha fé e mais ninguém... Fora o resto do mundo, que também se comoveu; Meu tambor dita o compasso do instrumento que sou... Instrumento de repasse das verdades do meu Deus!
Somos eu e o meu tambor semeando o amor de Deus!!
“Encerrando nossos trabalhos Pedimos a proteção Ao nosso Pai Oxalá Por cumprir nossa missão.”