Um Velho Taura, Recém-Nascido
Voltei... ...me aguarda a tolderia de um poncho! De suas baetas escorrerão penas Que hei de colher nesta vida, Além das que já trago comigo E que carrego, com gosto!
Tinha saudades desta terra! ... do fogo grande no galpão Dos pingos e dos cavaletes Encilhas pra lida - ou mansidão... Do minuano, pulseando a quincha, Dum sangrador atiçando a brasa E dum grito de “ô de casa!” Campeando prosa e chimarrão...
... exalam nostalgias pelo cheiro Que brota, ao parir-se um luzeiro No querosene dum lampião...
Eu quero saber dos meus - dos de ontem e dos de agora! Muito se esvai entre os dedos Depois que uma vida se atora... Ah... e o universo se demora Até que tenhamos o alento De enforquilhar novo tempo Saciando a fome da espora!
Voltei... ...para estes campos dobrados E para o rigor das estradas... Para os mates madrugueiros E pra o buçal na mão canhota, Num grito de “forma cavalo”!
Tinha saudades deste mundo! Do pingo, pras pernas cambotas... E, de a grito, laço e cachorro Tirar um turuno das grotas! São avoengas reminiscências Dos aromas de sanga e de mato! Sim... o meu destino, de fato Teima em fazer mossa nas botas...
... renasço, pras horas mais brabas Onde até mesmo, um índio taura, Se facilita, do nada se descogota...
Eu quero saber dessas lidas! - Trago as perícias de antanho! Quero botar pealo em marcação Ter nas estâncias, o meu ganho... Repontar tropas por léguas, Alambrar horizontes do pago... Quero a botella do melhor trago Pra tesoura firmar no rebanho!
Voltei... ... para a fronteira que é minha Por peleia e descendência! Voltei ao batismo dos rios, Ao olhar sagrado das luas E à velha boieira, madrinha...
Tinha saudades aqui de fora! Da tava e de um baile de ramada De “jogar a vida” numa aposta Sem meio-termo: tudo ou nada! Taurear na cancha, dobrar parada... Torcer pra o osso na “viagem” ...num cambicho, pedir passagem Arrematando em sorte clavada!
... quero voar em quatro patas Pelas carreiras, fazer bravata, E me garantir numa cuerada!
Eu quero saber dos rodeios! Com miles de reses pampas... Das velhas carretas gemedeiras ...da canha buena na guampa! De trempe e cambona tisnadas, Do charque pra um bom carreteiro E de um antigo fogão campeiro Forjando um “gaucho” e sua estampa!
Voltei... ... também preciso desatar uns nós, Mesmo habitando outra matéria... Ala pucha, que coisa bem séria O poder que a nossa alma tem De nunca, jamais, se findar no pó!
Tinha saudades do que sou! ... das cordas, trançando paciência Quando o céu se faz lamento... Saudades até, das artes de piazito E, quando, mocito, manter tenência Para aprender com os mais velhos Sobre os costumes e mistérios Que do campo, são a essência!
... pois bem...retorno ao seio familiar Sabendo que há muito por trilhar Nas vastidões de alma e querência!
Eu quero saber da simplicidade! Quero libertar meu coração, E seguir escrevendo minha história... E um dia, quem sabe, ser poesia! De norte a sul, na geografia Destas sulinas paisagens, Quero semear honra e verdade Para a colheita eterna dos dias!
Voltei... Como já havia voltado antes! E sei que o campo me esperava, Pois é meu parceiro, desde sempre. Somos passado, futuro e presente Tocando o Rio Grande por diante!
Tinha desejos de futuro! ...queria o aconchego de um ninho... Vou repisar antigos rastros, Buscar a firmeza nos passos E campear novos caminhos... Anseio por abraçar de novo Toda a minha gente, o meu povo ...não quero andejar sozinho!
... um sonho: prenda, pingo e morada Um perro bueno pras campereadas E um herdeiro, que me saia “igualzinho”...
Eu sou semente, fruto e memória Dos tempos dantes vividos... Abençoa, meu Deus, essa jornada E que me valha o tanto aprendido! Que mesmo ao tranco da evolução, A sabedoria possa estender a mão A um velho taura, recém-nascido!