Um Rio de Saudade
Minha visão é tão clara quando recordo de ti, fisgando algum lambari num caniço de taquara. Parece que o tempo pára!!! Vejo os teus cabelos brancos refletidos nos remansos e cada ruga do rosto... Fincaste ali o teu posto, no mesmo antigo barranco.
Hoje, o rio Uruguai ainda é o mesmo rio, só um pouco mais sombrio sem tua presença, meu pai... Meu pensamento se vai nas picadas, de lampião, varando a escuridão que me arremessa a infância numa linha de esperança iscada de solidão.
A vida passa chispada feito um tufão de vento, de lá do fundo do tempo vem tua silhueta, postada, reboleando uma chumbada de esperança e incerteza, pois quem conhece a pobreza e a inconstância do rio, sabe que o anzol vazio é um prato triste na mesa.
O nosso velho galpão guarda ainda os teus avios, o rio é o mesmo rio: A mesma linha de mão, só mudou meu coração e os meus olhos trincados... Eu devia ter pescado a vida inteira contigo, meu velho pai e amigo... – Eu devia ter ficado –.
Rio das pedras centenárias, com suas lendas ocultas, seguem rolando, avulsas, tempo a fora, viageiras, misteriosas, mensageiras do que só a alma escuta... Porque toda pedra bruta guarda segredo de nós, nem o rio e sua foz sabem que a pedra transmuta.
Rio da vida, rio da entrega dos meus sonhos afogados, das piavas, dos dourados, alagando tantas léguas... Das tuas enchentes, sem trégua e teus estios de miséria, carregando em tua artéria a dependência da chuva e o pranto das viúvas rezando nas intempéries.
Hoje volto já tordilho para dizer que o teu neto não terá o teu afeto... Porém eu, que sou teu filho, vou mostrar-lhe o mesmo trilho de homem simples, sereno, pois, mesmo sendo pequeno, há de herdar a confiança que me deste, ainda criança, de achar meu rumo a remo.
A vida é uma canoa que desce o rio e não volta... Quando a corda se solta, a alma navega, à toa, ao livre arbítrio da proa, neste destino costeiro de ser livre e prisioneiro de um rio que nunca foi meu... Ah...Eu sim, sempre fui teu... – Feito as águas... Passageiro –.