Remorsos
Ressona a estância... Meus devaneios, não! Sobrevivo assim, num purgatório reflexivo... Travo embates - em meus adentros Desolado que chego, Flertando com o fim... Alma arraigada num ontem - tão perto Despertam desejos E ânsias peregrinas De transcender as surreais metáforas Pelas veias poéticas Que correm em mim!
Os pensamentos Ludibriam consensos Olvidando-se às triviais narrativas... Mente e coração unidos e ávidos, Sangrando vida - e tempo - Pela tez do papel... Memórias enamoram-se ao novo Silêncio que fala - e grita - Em versos! Temporal de intempestiva criação Onde não há limites Entre terra e céu!
Dos mates lavados Em noites insones, Sorvo incertezas num pensar insólito! Dou labuta à pena, escravizado em penas Que colhi à soga Desses meus momentos... Das taperas que cruzei - e plantei - na vida Soube dos vazios E suas plenitudes... Mágico encanto, em bocas de quietudes A sussurrar segredos, Pela voz do tempo! Derradeiros dias, Em que me paro inquieto Engolindo em seco, o sal do meu olhar... É rumo indefinido, o de semear saudades Pelas horas mudas Desse meu destino... Ferindo o escuro, a lua incandescente Traz o seu afago Nesse imenso breu... Há uma solitude, que me vigia e sabe As dores da verdade Dos meus desatinos!
Crepita o fogo, Nos desvarios do inverno... Em puros cernes, antes sombras grandes Fulguram chamas, bailarinas nuas, Descompassadas... belas... A encantar o Minuano! A cambona resmunga pela madrugada Maldizendo o agosto E desafiando o frio... Pulsa meu peito - ah, vida desalmada - És lâmina afiada A retalhar meus planos!
Vou repisando rastros Das folhas em branco Emprenhando linhas, parindo poemas... Tropilhas de picumãs disparam à quincha Alçadas... e atávicas... Enlutando o galpão... Mania que tenho, a de manter rituais .de falar com os cuscos .e de matear solito! Sou refém do incerto - e do indecifrável - E do potro indomável Da inspiração!
Tal qual as lenhas, A vida em astilhas... Partida em anos, que envergam sonhos... Tarca inclemente, a que afere a idade! Não oferta pausas Jamais erra a conta... Que o diga, o bravo cinamomo grande Alvo de minha inveja Em seu ocaso heroico: Resiste em pé, se entregando aos poucos tempo que soma Também nos desconta!
A estância dorme... Mas minhas cismas, não! Nas horas ermas, me invade a poesia E já de há muito que é mesmo assim.. Me extravia o sono E me põe arreios... Tira-me as baldas e cansa cavalo Bem no seu trote... Sempre ao seu jeito... Antigo feitiço, que me aprisiona e salva, Que me completa E me parte ao meio!
O arado dos dias Me fustiga o corpo! E a pelagem moura evidencia a sina De desgastar matéria e aprimorar o espírito... Serei eu mesmo O meu infinito? Bato o tição, no afã de avivar as brasas E a madrugada Me beija em tons de cinza... A boieira aos poucos, negaceia o brilho E parte, sem apego As dores que sinto!
Habitam remorsos No sonhador recluso! Repleto de ausências, lamento as escolhas Na solidão da estância, que silente, dorme... • .e mesmo em pedaços Ainda estou aqui... Se vida e morte são avessos, cada fim é um recomeço... E até mesmo o covarde Tem direito a perdão! Me aceitem dilacerado.., pois, entre o certo e o errado, Que atire a primeira pedra Quem nunca fugiu de si!