De Matungos e Gaiatos
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De matungos e gaitaços, me fiz peão por destino. Que outra sorte um campesino pode cobrar desta vida, Se os pobres nascem pra lida e a mim tocou ser campeiro? Desde guri cavaleiro, domador por profissão. Por lambuja do patrão com a graça de ser gaiteiro.
Voando em baguais e potros, pernas firmes sem esporas, Num galope campo fora, o pasto é o céu esverdeado. Me vou de chapéu tapeado, contando com Deus e a sorte, Não tenho medo da morte, mas nunca afrouxo o garrão Pra lidar com redomão, olho aberto e braço forte.
Por respeitar as crendices, não enfreno na lua nova. Certa feita eu tive a prova de um mouro que deu babão, De natureza, quebralhão, se aporreou por ser malino. Tinha a marca do destino, me palpitou na pegada, Bagual da venta rasgada não nasce pro pasto fino.
E quando as noites se amansam nas luas cheias do outono, Nem se mexe o cinamomo prá escutar canto e cordeona, Uma polquita chorona, num trotezito chasqueiro, Embala a luz do candeeiro anomando as sombras mortas, E o folo rouco se entorta num compasso galponeiro.
Não raro o sono se arisca e a solidão me acompanha. Golpeio um trago de canha e enquanto a noite se alonga, Vou repontando milongas das hileiras assoleadas, E as rudes mãos calejadas de mango, rédeas e crinas Vão se parando franzinas no acorde das madrugadas.
Primeiro, o canto dos galos, depois a barra do dia. A boieira, estrela guia, aos poucos vai se apagando, Do pampa se levantando, nessas auroras serenas Brotam xucras cantilenas no clarim da passarada Com relinchos da potrada e o guizo, das nazarenas.
Rodadas, não tive muitas, em domas, se roda pouco, Mas "hai" sempre um potro louco, velhaqueador, caborteiro, Que o índio por mais ligeiro, não se afirma nos arreios Às vezes, um tombo feio, às vezes saio parado. Por isso evito alambrado e o pelado dos rodeios.
Pelos surungos do povo, tocando gaita em bolichos, Vez por outra algum cambicho reacende o sonho de um rancho, Mas o destino carancho me acorda num sofrenaço E aos corcovos e laçaços, sempre lidando sozinho Volto a trilhar os caminhos de Matungos e Gaitaços