Versos Prá Quem Ensinou a Vida
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Cabelo mouro, atestando Que a ação do tempo e da vida Deixa marca irreversível Em quem de fato viveu. Bigode mostrando a essência, E na face a experiência De quem tudo conheceu.
Trazia na vestimenta A sua simplicidade: Boina de lã, bem gaúcha, Pela qual manta ao pescoço, Bombacha meio surrada E um coração sem mágoa, No simples armando a rede, Porque quem mata a sede Não é o copo, é a água.
De tudo sabia um pouco Porque aprendeu co’a vivência, E jamais negou ajuda Pois adorava ensinar. Seu jeito meigo e paciente Era um prazer, e a gente Parava pra lhe escutar.
Nunca cursou faculdade Mas era qual professor; Com forte inspiração Fazia verso rimado. Nunca perdeu uma carreira E assim desta maneira Fez Prendas e Peões do Estado.
Muita gente dele não gostava, Porque por ser cativante O que dizia aos amigos De logo virava lei. Era um exemplo gaúcho, E isso em muitos dói, Agia com sinceridade, E sabemos, a verdade Aos invejosos corrói.
Porém um dia, o destino Quis levar-lhe pra outros pagos, De onde a gente não volta, Deixando só a saudade. Um flete crinas de vento Levou-lhe pra outra Estância, No céu é longa a distância, Mas não no meu pensamento.
Neto Saldanha. Tio Neto. Quanta falta o Senhor faz, Mas seus conselhos e exemplos Pra sempre irão me guiar, Pois fortes são nossos laços E sempre ficam pedaços No que a gente semear.
Por isso, nas noites claras, Quando o vento de mansinho Embala flores e galhos, Creio que seja seu pala Desfraldado na distância, E a luta cheia, tão linda, A sua boina de lã.
E o céu pilchado inteiro, Porque agora é seu rincão; Então, num astro passando, Vejo o Senhor ensinando Pras estrelas tradições.