Dos Tentos Trançados de uma saudade
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A porta do galpão largo emoldurava o momento que figurava ali. Um olhar no horizonte por entre campo e gado, permita que o passado trouxesse o tempo em reponte.
A mão trêmula sovava, o fumo, e, os dias, por certo, sovavam a vida na face enrugada de tantos invernos. Fechou um palheiro palmeou o isqueiro ainda de guampa; e a pequena chama penumbreou a vida que estava lobuna de tanta saudade. Deu uma pitada, olhou para o chão, e respirando fundo sem se conformar, ergueu a cabeça para então sentenciar: A vida mudou.
É claro, cada um tem seu tempo, mas o cenário se pintava tão sério e as feições no semblante miravam tão longe que; até me enxerguei num certo passado que nunca vivi.
Ouvi as carretas, rangindo, chorando, tropel de cavalos, gritos de saudade, e o sacrifício que deixava marcas naquelas faces tranqüilas e calmas, com olhares profundos e bigodes de respeito,
O dia acordava cedo naquelas épocas e o fogão de lenha aquecia-o, inverno e verão, na cambona alça de arame, a água quente taleriava, e sobre a chapa estalava a casca de algum pinhão. Era uma hora sagrada, onde a alma era regada com a seiva do chimarrão.
Nunca vi tanta riqueza, prenhe na simplicidade daquele certo passado que até então não vivi. Mas de maneira tosca, banco de cepo revestido de pelego, caneca faltando a asa e um rádio caixa de abelha que mal dava pra escutar, um poncho estendendo o catre e um terço feito de tento, porque fé é um sentimento pra vida se governar.
Quanta riqueza emprenhada naquela simplicidade, naquele cesto passado que até então não vivi. Uma cuia de porongo recostada na parede era qual um coração, pronto a emanar guarida. E assim era então a vida, cheia de felicidade, quanto mais simples o rancho, mais traz a hospitalidade. ( Nunca vi tanta riqueza, prenhe na simplicidade)
E vio-se o tempo, tropeiros e tropas viram caminhões levado na estrada de piche e asfalto trabalho e sustento de sãs gerações. Tropel de cavalos só em micro-piquetes, esperando a ceifa da morte chegar, quadrilha relincha, como adivinhando que o matadouro é seu último estar.
A vida mudou.
A simplicidade perdeu-se no tempo, e o homem que a fortuna da enxada pra terra semear. Se foi pela estrada buscando no nada a fome saciar.
Em que mundo nos vivemos, se a triste ganância manda em sentimentos de fraternidade. Se o egoísmo broqueia o peito, e não há respeito nem camperidade.
A vida mudou.
O homem é tropa marchando ao relento, procurando do nada a dignidade a tempo perdida. Sorvendo a miséria, vivendo acampado, lembrando o passado com a alma dolorida. Que pena o progresso ser tão implacável. Que pena que a lida ficou esquecida. Mas não faltam tauras voltando pra terra, fazendo uma guerra de suas próprias vidas.
Talvez reste apenas os campos do céu, tropas de estrelas e fletes boieiros. Talvez brancas nuvens nos sejam pelegos, pra eternos sossegos de nossos campeiros. Talvez seja a lua um disco de arado abrindo um regado pro raio semente. Talvez seja o vento, a triste saudade que ainda invade o peito da gente. E a chuva, bem mansa, que vem de repente, sem se conformar que o tempo passou, é o choro da terra, do campo, da história, por um infortúnio que nunca aceitou. E que triste seta sina: A vida mudou.