Alma em Verso
Poesia

7 . Ode às Mãos do Bem

Vaine Darde

9º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em

Não, não invejo os pássaros... Pois só tem asas quem não tem mãos. E foi pela vocação das mãos Que construímos caravelas, E nos jogamos aos mares Pra transpor os continentes, E nos tornamos Ícaros insones Pra voar entre as estrelas.

Foi pelo auxílio das mãos Que saímos da treva das cavernas Para a luz da sabedoria, Que falquejamos as dificuldades Da pobre condição humana Para o domínio dos objetos E conquistamos os mares, os ares E onde nossos avós plantaram casebres Semeamos edifícios.

A mesma mão que alcança o mate: Tece o pala, trança loncas, Toca acordes, lança o laço! E quando os lábios imprimem A música do verbo, Aí, sim, as mãos são asas... Um par de asas inquietas Dialogando com as palavras.

E como tudo, entre o céu e a terra, Há mãos do bem e mãos do mal: As que se unem pela vida E as que se armam para a morte, As que afagam e as que agridem, As que condenam e as que perdoam, Mãos que curam e mãos que matam.

Mas as mãos que me fascinam São aquelas mais humildes, As aprendizes do oficio da semente, Que fecundam esperança Com a dádiva do grão. Incansáveis mãos, mágicas mãos Que transformam trigo em pão E se ferem pelas uvas Para a comunhão do vinho.

As mãos que me encantam São as mãos que salvam vidas, Que exercem dons divinos Num labor angelical: Mãos que curam, que acolhem. Que orientam e protegem, Que se doam pelo outro Em inúmeros ofícios De sublime vocação.

As mesmas mãos que firmam tentos Pra que o homem se imponha Sobre a força do animal, São as mãos que acariciam E andejam com ternura Quando a pele veste céu... A mão que marca a fogo Pode ser também a mesma Que oferta a rosa rubra.

Há mãos que imitam Deus Pra transpor a realidade Ao criar o inexistente Quando a arte é religião, E há mãos que se dedicam A encantar a solidão Ao semear vale e planície, Desde o rio ao horizonte, Povoando o ermo extenso Com a dança das espigas.

Há mãos que se embriagam No bailado das adagas Nesse bárbaro ritual Que ostenta armas brancas! Mas há mãos que erguem taças Pelo amor ou pela paz, Ou nos templos, nos altares, Quando o vinho é consagrado No mais belo dos mistérios No esplendor da liturgia.

Se foi pela razão que nos tornamos Absolutos sobre a terra, Foi pelas mãos que nos fizemos Artífices de todas as conquistas, Dominantes de nosso tempo, Audazes e capazes de todas as ações: Mover rios, remover montanhas, Redescobrir a vida, reinventar a criação, Refazer a luz e pisar na lua.

Não vou cantar às mãos do mal, As que mutilam e destroem, As que assinam e assassinam Pelo mau uso do poder. Essas não me interessam por seus atos Pois são mãos que profanam e arrebatam A vida, o sonho, o pão. Glória, sim, às mãos do bem, Às calejadas mãos de ofícios nobres, Mãos que plantam esperança Pra colher searas plenas.

As mãos... as mesmas mãos... As mãos que nos trazem à luz São as mãos que nos sepultam. Mãos que embalam o berço No materno apogeu... E, postas, unidas, entrelaçadas, Ou dedilhando o terço Unem o humano ao divino Quando o homem, de joelhos, Cruza as mãos perante Deus!