6 . O corvo
9º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em
Asas negras preenchiam o esboço vazio da tarde...
Misterioso e repudiado o abutre carniceiro deslizou no céu do Pago... Asas grandes estaqueadas como pairado no ar, a fome urgindo no instinto e a gula cega no olhar...
Em sua faina agourenta buscou o farto banquete que se estendia alo largo, naquele campo cenário de um combate malogrado.
O fartum repugnava no repasto mormacento, regalo para saciar seu anseio famulento...
...o que chamavam bravura na tal de revolução, não passava de barbárie dos homens do mesmo chão...
Chegou num vôo rasante negaceando, vacilante... mas decidido enfim pousou o porte bizarro no cobiçado festim.
Como quem busca detalhes no caos macabro que via o avejão relutava... - Abria as asas, parava... - Armava o vôo, voltava... Como quem mesmo tentado se sacrifica ao jejum pra não cair num pecado...
Parecia renegar sua natureza insaciável, por pena da raça humana ser tão fraca e miserável...
Eram homens! Perfeição que Deus moldou com o barro primordial, pra ser de alma e matéria sua imagem racional...
Sim, eram humanos! O ser que domina o mundo se decompondo qual bicho, a ignorância estampada com asqueroso capricho...!
Também chamados de, gente! -Mas, piores que o corvo talvez- Pois este nunca enfurece e convive com sua espécie numa instintiva harmonia, não mata mesmo com fome bem diferente do homem que mata por covardia!
Não! Não saciaria sua fome naquele campo de guerra, com os despojos da fúria do pior animal da terra!
No mais nojento desprezo galgou de novo o espaço sumindo no céu do Pago... Asas grandes estaqueadas como pairado no ar a fome urgindo no instinto e a gula cega no olhar!!