Sob os Olhos Vendados da Justiça
I Tira tua venda ó Deusa da justiça E olha nos olhos dos teus magistrados, Vejas o quanto que andam degradados E corrompidos pela vil cobiça
Tira tua venda ó Deusa da justiça E verás com espanto as tuas leis Servindo pra amparar algumas greis De onde o poder emana e enfeitiça
Arranca, pois, esta viseira, arranca, Quero mirar de vez tua carranca Para saber o que há dentro dos teus olhos
Pois suspeito que eles vêem a decadência E se cobriram só por conveniência, Fingindo estar alheios aos embrólios
II Enquanto o povo sofre sob a canga Guiado por rejeiras e ferrões, Imóvel tu veneras os cifrões Que multiplicam-se nos bolsos da camanga
Enquanto tu manténs cartas na manga Para uso espúrio e oportunista, Os coronéis passam as tropas em revista E ao povo nada mais que a dura changa
Não vês que o Continente Varonil Ainda explora a mão de obra infantil E maltrata os negros, os índios e os idosos
Que a saúde está regrada pela usura Dos planos, que têm máfias na estrutura, E que a vida está na mão dos poderosos
III Há uma legião de inocentes, cujas penas Os fazem vegetar pelas cadeias, As leis são como aranhas, que nas teias Só aos pequenos impõe suas condenas
Há uma horda de canalhas de gravatas Que andam, a lo largo, protegidos,
No capital dissimulam-se os bandidos E os tribunais se lambuzam de bravatas
Há um Cristo mendigando em cada esquina Porque a justiça arbitrária o discrimina Insensível, no afã do alto salário,
Fala mais alto o ideal corporativo, E o mal, que é poderoso e que é lascivo, Deslumbra e embriaga o mercenário
IV Larga, ó Têmis, os pratos da balança Que pendem, quase sempre, ao lado forte, A senha é o cifrão, que mostra o norte, A “orquestra” dá o tom e o povo dança
Tira esta máscara e mostra o teu semblante E olha bém nos meus olhos que te indagam, Repele as lisonjas que te afagam E abraça a dor que sofre o semelhante
Por Deus, te imploro, não passes pelas eras Fingindo que não vês as tuas feras Omissas ao clamor que desatina,
Pois um dia haverá, tenho certeza, Uma voz que se erguerá da natureza E uma justiça maior da Lei Divina!