O Braço Forte do Avô
A mão cansada do velho A muito custo segura O frágil braço do neto, Na iminência do abismo Que o próprio neto cavou; Quase num último esforço Firma a carcaça judiada, No fundo do abismo, o nada, Testando a força do avô
A luta é quase covarde, Prevalece a gravidade Que vem do fundo do tal, É mais que um cabo de guerra Pra o contraponto da mão; Mas há um amor, que é tão grande, Ancorando a mão cansada, Mantendo a força sagrada No aço do coração...
Quem diria! O xucrismo, Os bons exemplos, as charlas, Toda a experiência de um taura Nestas horas se apequena Diante das forças do mal, Porque o neto, um piá campeiro, Desses campeões de rodeio, Resolveu virar arreios E arrebentar o buçal
Nem sabia o pobre avô Que a desgraceira dos vícios Anda rondando o piazedo Entre o laço, gineteadas; Que a tradição do Rio Grande Se perde nas entrelinhas, Por entre os bretes urbanos, Com conceitos desumanos De tantas regras criadas
E nem o neto sabia Das armadilhas que o mundo Vai semeando a lo largo, Entre o campo e a cidade; E os dois, por certo, não tinham, Na ingenuidade do campo, Noções que existe um sistema, Uma fórmula, um teorema, Pra enredar a sociedade
As lideranças que fazem Mover a roda já gasta Da tradição e cultura Têm ações muito acanhadas; Tentam mostrar seus projetos, Às vezes, pura falácia, E que só tem eficácia Pra alimentar patacoadas
A segurança, a justiça, Que deveriam chegar Com mãos fortes de Governo, Às vezes são coniventes, Porque “lhes gusta” o proveito; A Lei existe pros fracos, Isso de há muito é sabido, José Hernandes, (precavido), Já descreveu tal conceito
Luxuosas sedes sociais Vão aos poucos se instalando Nos arrabaldes povoeiros, Onde há mais mesas e pratos Do que livros e museus; A gana arrecadatória Suplanta o fim cultural E a história virtual Afasta as almas de Deus
Aos poucos, mermando a força, Reforça o pé no baldrame, Busca razões e princípios E não se entrega o avô; Enxerga o fundo do abismo, Olha pra o céu, pede ajuda, Pois sabe que não tem volta... ...A mão do neto não solta, É forte, mais que pensou!
É só o amor, nessas horas, Que pode vencer a luta, E os dois agora já sabem Como transpor a torrente; Se as águas turvas do fundo Engolem vidas e sonhos, Doutro lado há um paraíso... Transpor o abismo é preciso Pra vida seguir em frente.
E, como dizem os guris Que sonham um mundo melhor: - No bolso de uma bombacha Não tem lugar para os vícios, Nem espaço pro errado; Alguns patrões “fecham os olhos”, E a sociedade maleva Não bebe o mate que ceva Porque prefere o pecado
A fortaleza do avô, Tironeado pela lida, Resgata o neto do abismo Que ele cavou pra sua vida; Então, num último esforço, Abraça o neto, chorando, Um gesto maior que o mundo, Um amor grande e profundo, Ao ver o neto voltando
Que Deus pra sempre abençoe A tradição do Rio Grande, E estenda o manto sagrado Em proteção aos avós; Livrai-nos de todo o mal Que destrói a humanidade, Manda paz à sociedade E amor para todos nós!