Elegia ao Galo Índio
Olhei o terreiro grande, onde outrora o galo índio Exibia sua prole nas manhãs de primavera; E vi um vazio enorme, num terreiro já disforme Como um rancho já tapera.
Não vejo mais o meu galo cantando lá no puleiro Pra alegrar a galinhada espalhada no terreiro.
Há um silêncio que desola nas compridas madrugadas, Já não se ouve a cantiga que anunciava a alvorada; - O canto que despertava no rouco da tua voz O sonho de um novo dia, já não está entre nós...
Mataram junto a teu canto a cultura milenar Sagrado atleta de Olimpo, rude campeiro a pelear.
Apenas porque és valente, nascido para as peleias Não compreendem alguns viventes que o sangue de tuas veias É o mesmo sangue dos guapos que foram meus ancestrais, É o mesmo sangue farrapo que não recua jamais Aguenta firme a refrega, morre de pé e não se entrega Porque és galo... nada mais ...!
A lei que prevê a pena, napanacéia que acena, É a mesma lei que condena uma espécie à extinção, Não considera raízes, história, povo, matizes, A essência da formação
O Movimento Gaúcho fala de modo especial Dentro do Plano Social escrito lá por noventa, Mostrando o Norte que orienta cultura e preservação, Porém, calou-se a garganta de alguns tradicionalistas Que baixaram suas cristas, desonrando a tradição.
Assim vingou a falácia dos pseudos moralistas Intimidando os galistas (que não praticam maus tratos), Mas se alicerçam nos fatos que a tradição os legou Pois desde que o mundo é mundo e desde que gente é gente Se conhece o combatente que o Patrão Grande criou.
E a ninguém se dá o direito de extinguir da natureza A presença e a beleza, seja da espécie que for, Sei que merece louvor quem tem amor pelos bichos E, com certeza, por isso, merecerão a clemência Mas, garantir descendência é parte do compromisso.
Hoje lembro com carinho o presente do padrinho Nos idos de minha infância: Um frangote colorado com o bico bem afiado, Recém largando os batoques. Havia grande importância na essência desse regalo, Simbolizava uma herança que vinha através do galo.
Depois do Antônio tomás, Laurindo Mendes, Monteiro... Foram tantos os parceiros, que já não cabe na tarca, Ando a esperar que retorne o timbre macho de um galo Que há de chegar de acavalo no canto de algum Monarca.
Não venham dizer letrados que hoje faço apologia Tão pouco é analogia a institutos legais São valores essenciais de uma cultura, de um povo, Apenas busco, de novo, a inspiração na poesia Para fazer elegia a quem deu tanta alegria À vida dos ancestrais
Enxergo enorme vazio assim como em meu terreiro Na vida do povo ordeiro que trabalha pra viver Sem o estado prover fundamentais garantias De escola e de moradia, de saúde e segurança, Enquanto provê bonança às classes privilegiadas, Altos salários, mesadas a quem consegue a barganha; “Lobo é lobo”, assim é a manha para os que vivem de olada.
Quero um dia o galo índio povoando o terreiro grande E torcer pra que alguém mande apoio de fundamento A quem produz alimento pra alimentar quem faz leis, Que se dissolvam as greis de cunho corporativo, Que este pago aonde vivo cumpra o lema da Bandeira, Mostre que não há fronteiras nesta querência de guapos E que o ideal dos farrapos, mais do que nunca, está vivo...!!!