Alma em Verso
Poesia

Romance dos Três Lenços

Apparício Silva Rillo

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Eu tive um lenço pachola que agora não tenho mais. Lenção de cor colorada como a flor da corticeira crioula dos pajonais. Tive este e tive um branco que também não tenho mais. Nesse branco muita china Que se tinha por arisca Afogou dengues e ais. Monarqueando num fandango conheci Maria Flor. E o colorado pachola foi o sinuelo de seda que entropilhou nosso amor. Um dia atei o meu branco tremendo ao fazer o nó. Foi no dia em que o vigário atando nossos destinos nos deu um destino só. Lá um dia a dura morte levou com Maria Flor. Pra amadrinhar o meu luto deixou-me um lenço, de quebra, novo de pano e de cor. - Cor da noite sem estrelha, noite sem lua, amoitada, no sem-fim da escuridão. Cor de flanco de chaleira que envelheceu galponeando no costado de um tição. Cor de macega incendiada, carvão de angico, apagado, asa de corvo e de anu. Cor de olheiras de mãe nova velando um piá com febre sob a cruz de um Cristo nu. Meu lenço de seda preta, meu parceiro de silêncio no amargo da viuvez! Ao dar-te o primeiro tope meu coração garrão-duro frouxou a primeira vez. E agora, nas minhas tardes de chimarrão sem parceiro, destapo o rastro das horas que o tempo reculutou. E ao recordar os três lenços que ao longo da vida tive, o moço que eu fui revive no moço que eu já não sou... Colorado topetudo! Quanta coisa tu me lembras quando eu me lembro de ti. Tu foste a primeira seda que apresilhei no pescoço botando templa de moço no meu jeitão de guri. Na tua cor incendiada quanta lembrança guardada, quantas velhas sugestões. Caminhos de barro e sangue cortando a terra vermelha de São Borja das Missões. Madrugadas de dezembro braseando topes de cerro no horizonte das manhãs. Sangrias de sol poente vermelhando nos remansos do velho rio Camaquã. Brasedo bom de branquilho fazendo troça de maio, taureando os primeiros frios. Potreadas de guri novo pitangueando pelos matos, dando combate aos bugios... Meu lenço branco, de seda, retalho do manto santo de Maria Imaculada! Branco de espuma franjada botando dengue nas águas, nos rebojos de rio cheio. Branco de sal posto a farta nos cochos de timbaúva dos pelados de rodeio. Branco de pluma de garça, branco de nuvem andarenga centelhando no arrebol. Geada branca de julho vidrando um raso de sanga na luz primeira do sol. Teu branco de brilho enxuto me lembra um lençol de noiva na grama de um quarador. E um pingo que era meu luxo - tordilho de anca boleada, crina grande e marchador. Lenço branco, companheiro, ao te lembrar entristeço, logo a saudade me trai. Contigo na meia espalda fui taita em muito fandango nas gambeteadas do tango do outro lado do Uruguai... Lenço preto, velho amigo, quanto me lembras, também! Só que nestes meus recuerdos tocou-te a bolada ingrata de vir cerrando a culatra, tocado do recavém. Se te tocou vir no coice, lenço preto - o que é que tem? Pois se até o anjo da guarda vem sempre na retaguarda sem se apotrar com ninguém! E o recuerdo, lenço preto, de alguma forma é a prece onde a gente nunca esquece de apresilhar um amém. Lenço preto, foste a noite que sem tarde e sem poente se abateu num redepente sobre a manhã de uma amor. Pelas velhas leis do mundo tocou-te ser a divisa onde a mágoa se eterniza no infinito de uma dor. Pano velho, tu me lembras que ao te ganhar eu perdia a flor chamada Maria, a moça Maria Flor...