Tempo Tropeiro
Se o sol peregrino andeja pra oeste mirando a boieira no seu caminhar, o Tempo Tropeiro ruma ao setentrião, buscando seu norte... e voltando pro sul.
Se a Lua serena deixa Aldebaran e dia após dia se vai pro Ocidente, o Tempo Tropeiro percorre a existência pelos meridianos do Sul do Brasil.
E nesta infinita jornada terrena avistou uma terra que se transformou... Viu a araucária surgir na paisagem, guardiã imponente de todo o planalto!
Sapecou cajuvá no Cerro do Bugio com o povo Xokleng da mata fechada e mateou com os Kaingangs nos campos abertos da Coxilha Rica.
Viu o bandeirante abrindo picadas, desbravando caminhos para as baquerias. Viu tropas de gado pelos corredores, do Sul para o Norte, até Sorocaba.
Viu cascos de mulas riscando nas Lagens e viu os Birivas ocuparem as margens da Estrada da Mata, que corta ao comprido os campos legados a um tal Guarda-Mor.
O sangue do bugre encharcou essas trilhas e os olhos de estrada do velho tropeiro se encheram de lágrimas por primeira vez. Por isso faz pouso com sua comitiva no toldo sagrado da índia Liberata para ouvir silêncios num longo palheiro, para, despacito, benzer seu cobreiros: "- Te bendigo y te sano, com una rama de ruda..."
Viu cercas cortando os Campos da Dúvida, fazendas e vilas transmutando o sertão, viu varas de porcos seguindo restolhos, pinhão e butiá em tantos faxinais. Acenou de passagem a um tal Gumercindo e às tropas maragatas no rumo da Lapa. Rezou padre nosso com o Monge Joao Maria, -assobios e cincerros como melodia-.
Mas de tanto andejar, o Tempo Tropeiro conhecia os mistérios das gentes daqui e no Contestado olfateou maus agouros... A estrada de ferro rasgava os caminhos, as araucárias tombavam sem dó e a miséria reinante tornava o caboclo uma presa fácil pra falsos profetas -messiânicas vozes formando redutos-.
Murmúrios de reza por entre as fileiras da guarda encantada de São Sebastião, menina Teodora vendo uma guerra santa, monarquia celeste ordenando jagunços. Viu Chica Pelega em refúgio na Igreja e o fogo queimando no Taquaruçu. Viu Maria Rosa no cavalo branco e o sangue escorrendo no Caraguatá.
A guerra deixou cicatrizes profundas no lombo do Tempo... que seguiu adiante! Avistou de relance o Nego do Porfírio com o seu burro preto parceiro de lida livrando tocaias num trocar de orelhas, de bota, bombacha, chapéu bem tapeado, um lenço encarnado tal qual delegado e um tino certeiro para as capturas!
Quando os dois primeiros Frey desciam pro meio oeste toparam com a comitiva na altura do Butiá Verde e a saudaram em alemão: "-Zeitgeist, ich respektiere!" O madrinheiro da tropa, cuja alcunha era "Destino" qual testemunha da história, respondeu em vaticínio: -Bem-vindos sejam os livres, pra dar nome a este rincão! Na culatra, um tal "Progresso", irmão mais novo do Tempo, resolveu desencilhar... e ali se aquerenciou.
Anos depois o Tropeiro viu surgir o povoado com cantos de serra fita e semblantes imigrantes, viu escolas florescendo pelas mãos do padre Blagio, viu os pinheiros do norte povoarem sesmarias pra dar madeira pras vilas, pra dar papel pra poesia! Ouviu sotaques da França fazendo brotar pomares e seguiu na sua sina de percorrer longitudes, mas com as antigas bruacas carregadas de maçãs!
Nas idas e vindas por tantas picadas milênios de estrada nos olhos do Tempo que seguem em vigília da trilha ancestral com as veias abertas cobertas de asfalto. E hoje, por gosto, faz pouso em Fraiburgo, abençoa este povo lá do céu azul e repisa os carreiros da alma da gente, que busca seu Norte... e retorna pra o Sul!