TRÊS OLHARES SOBRE A NOITE
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I
A escuridão abre o dossel no pago - um poncho negro sobre nós flutua! Na gola, o furo, forma a luz da lua que se derrama sobre o pampa vago!
Ouve-se a voz tristonha do urutago que fere a noite com sanguíneas puas... Estância e estrada, dormitando as duas, “a quem esperam?” sem saber, indago!
Há uma saudade que se perpetua... Que me persegue ou, sem querer, eu trago em minhas veias que são velhas ruas!
Ao meu olhar, a noite se insinua e, indecifrável, dá-me o seu afago; porém, oculta em sombras, continua!
II Uma coruja, tímida, observa com seu olhar imenso o obscuro... Soam lamentos, prantos e esconjuros que o imaginário popular conserva!
O último mate já lavou a erva e o trasfogueiro dorme um sono puro... Um piá insone sente-se inseguro e ouve o silêncio que o temor reserva!
Sem preocupar-se com qualquer futuro, um ser notívago que o breu preserva vai explorando pastos e monturos...
E o cão sem dono, esquálido e maduro, chora pra lua lúcida e se enerva com as silhuetas ágeis pelo escuro!
III
Quando sucumbe o dia, calmo e sério e o céu sangrado, aos poucos, escurece, toda a paisagem que desaparece vai se perdendo em sonhos e mistérios!
Dormem os homens: aldeões, gaudérios... Cochila a estância e o povo permanece de olhos fechados desde que anoitece até que a Vésper ronde os hemisférios!
E enquanto a vida, súbita, adormece, taperas, ermos, fundos, cemitérios acordam lendas que o presente esquece...
É quando o espectro suplica a prece e a treva exulta sobre o medo etéreo que desintegra-se quando amanhece!