Quando Me Apartei da Querência
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Um dia, eu peguei a estrada, Sem saber para onde ia... Pois o mundo que eu queria, Não tinha rumo, nem parada, Sombras grandes, ofuscadas... Bebendo a angustia das horas, Que rumeia ao mundo afora... Aguando o véu das retinas... Quando o sonho descortina, O corpo pede pra ir embora;
No silêncio dos corredores, Em cada passo que eu dava, Meus olhos se ofuscavam... Vendo a tristeza das flores, Na solidão, vinham às dores, No poncho negro, a saudade, Bebendo as gotas da tarde, Que ao horizonte se findava, Enquanto o sol se deitava... Nos meus sonhos de liberdade;
Há! Sonho de liberdade... Mas que liberdade é essa? Se lá o tempo não tem pressa, E a gente vive, de verdade... Têm-se espaço à vontade, Silêncio, paz e abrigo... A prosa franca dos antigos, O respeito co’a Mãe e o Pai, E uma ternura que vai... Juntando velhos amigos;
Sem tem as rondas de lua, Nas noites quentes de verão, Um fogo grande no galpão, Pras madrugadas charruas, E quando o inverno incrua, Um poncho feito de casa... Cambona chiando nas brasas, Pr’um mate véio topetudo, E um milongão macanudo, Pra’os sonhos criarem asas;
E pelas tardes de domingo, Tem carpeta e carreiradas... E alguma boca pintada, Pra garupa do meu pingo, Deixando algum respingo, Desses perfumes caseiros, Que enciúma o campo inteiro, E até as flores do aguapezal... Fazendo um taura, bagual, Se perder n’algum entrevero;
E quando ronca uma cordeona, No chão batido de uma sala... A alma bugra quase se cala, Pras carícias de uma dona, Quando se pára redomona, Numa quentura de choco, Pena que um dia é pouco, Para que gosta do apego... E faz ninhos dos pelegos, Num romance véio dos “loco”;
E numa tarde de rodeio... Dobrando boi brabo a pealo, Ou no lombo xucro dos “malos”, Enforquilhado num arreio... Floreando num talareio, De mango, tentos e esporas, Que até a sombra se apavora, Desse costume “bendito”... Deixando o corpo, solito... E se bandeia campo afora;
Há! Saudade daquele tempo! Que a alma, tanto, reclama, Quando a angústia faz cama, Num quarto de apartamento, Remoendo os sentimentos... Do velho sonho povoeiro, Que vai corroendo, por inteiro... O coração de um vivente, Aqui morrendo lentamente, Longe do mundo campeiro;
Por tudo o que eu já passei, Que a vida nunca me negue, De rever minha Vista Alegre, E o mundo que eu lá deixei... Se, pra muitos, tempo é lei, Pra mim é mais que existência, Enquanto tiver consciência, E a vida me der à graça... Pra um dia estender a carcaça, No chão da velha querência;