Quando a Vida Cobra Seu Preço
Publicado em
Quando a vida perde o valor, Até a alma se pára ausente... E traz pra memória da gente, Tantos ritos de crueldade, Onde o ódio e a maldade... Mancharam a baldes de sangue, A história deste Rio Grande, E a Praça de uma cidade;
Foi no dia dois de outubro, Do ano de vinte e três... Que a guerra mais uma vez, Em barbárie e carnificina, Deixou pela Pátria Sulina, O que o tempo jamais apaga, Uma matança, macabra... De corpos pelas esquinas;
Até no telhado das casas... Haviam homens armados, Seiscentos índios, ferrados, É o que a história me diz... Contra uns oitenta, “infeliz”, Valentes e de pura raça... Entrincheirados na praça, Da Velha São Chico de Assis;
E a bala “zunindo frouxo” Descabelando as aroeiras, O que era, posto e trincheira, Aos pouquitos foi mudando, Com os Pica-paus, recuando, Por entre corpos tombados, E os chimangos do outro lado, Um anel de fogo se fechando;
Nestes rasgos de bravura... Gritos, ameaças e lamentos, Delírios e arrebatamentos, De uma peleia feroz... Às vezes faltava a voz, Para os comandos de campo, E tinha o ferro do aço branco, Na solicitude de um algoz;
Pelo consumo das horas, A coisa já vinha mal... Com o combate, desigual, Foi calando a resistência, Numa sala da Intendência, Entregaram-se os combatentes, Meia dúzia de valentes... Implorando paz e clemência;
Pois muito foi a desgraça, Das centenas que tombaram, E até hoje não explicaram... De que valeu a matança, E o que restou de herança, Além de cruzes, sem nome, Só a crueldade dos homens, Que pelo tempo se avança;
Não vi nada de diferente, Pelos anais da história... A não ser a eterna glórias, De facínoras, infiéis... Que se esconde nos quartéis, Alheia a própria situação, De um irmão matar irmão, Dando estrelato à Coronéis;
Até hoje o povo sofre... As conseqüências da guerra, Pois a vida não se encerra, Quando um corpo é tombado, Cada um já traz marcado... Os seus dias de existência, Deixando a dor da consciência, Pra um dia, serem cobrados;
Por isso há tanta injustiça, Espalhada em cada canto, Se há tanta dor e pranto... Enquanto o tempo não passa, Mãe chorando a desgraça, De ver um filho tombado, Quem sabe, sendo cobrado, Pelas matanças da praça;