Glicínia
Eu vi uma flor bonita, tinha nome de senhora! Abraçada em seus enredos, pendurada em suas demoras… Parece até que sorria, e ao vento, se despedia enquanto eu ia-me embora.
Bem postada à quem lhe cuida (feito eu, também partindo), se casa com a primavera pra dormir sempre florindo! E acorda com a sutileza, da púrpura delicadeza do seu “vestido” se abrindo.
Ainda sim, sobrando encantos, pra enfeitar pátio e janela, ainda que se perceba a mão de Deus nessa tela… O coração só ressona quando me encontro com a dona (que é bem mais linda que ela).
Não digo o nome da moça, mas digo o nome da flor: Glicínia! Que no batismo ganhou pétalas de amor. Quando cruzo aquela rua, não sei bem qual é das duas que me faz mais sonhador…
Ali, segredo é perfume, - dos que ninguém descobriu! - e mesmo assim permanece cobrando quem o sentiu. Me persegue e não revoga, tanto é manso quanto afoga tal um rebojo de rio!
Uma me lembra da outra, indo do aroma ao caminho. Uma sabe d’onde venho a outra, que eu sou sozinho, a flor veste as claridades e a moça vive em saudade do mundo dos meus carinhos.
Contei 7 - bons - domingos juntando rimas no peito, queria entregar pra moça (entrelinhas dos trejeitos), o poema mais bonito que eu já fiz pro infinito com cheiro de amor perfeito.
Não me faltavam momentos que sem querer, lhe queria… Pois até uma lembrança faz a noite virar dia. A vista que desconcerta, é um encontro de poeta com os olhos da poesia.
Fiz o último arremate no verso do bem-querer, minh’alma quase foi junto antes mesmo de eu morrer! A folha ao poema brinda, e conta coisas pra linda que eu nunca pude dizer…
Passei debaixo da porta papel, rima e coração. Glicínia, que viu a cena abriu seu último botão! A flor (de terra e nuances), abençoou o romance largando pétalas no chão.
Agora que conheço as duas e fui aceito ao recinto, tanto a moça quanto a flor já sabem bem o que eu sinto! E em mansas brisas de chuva, uma tem jeito de uva e a outra um beijo retinto.
Assim mesmo desenhei a trajetória apaixonada, se não tivesse visto a flor sem nunca mais fazer nada. E sonho que já despertou, bem quando a flor me contou que a moça era casada.
As rimas não existiram, desejo é sol que s’esconde. Troquei romances de poeta pela calma de algum monge! Moça e flor, à quem respeita: pois algumas coisas são feitas pra se admirar só de longe.