Os Guardiões das Sesmarias
Publicado em
Esses homens, mais parecem fantasmas que os julhos despertam, dos fundos escuros dos ponchos surrados ou das copas bojudas de mouros sombreros...
Chegam mansos, alertas, porém, com traços vivazes de caricaturas que o tempo rascunha no esboço das eras.
Casmurros às vezes, falazes em outras... São como petrificados em gigantes estátuas, descansam arreios, estendem caronas, abanam as brasas e plantam garrões . Esquivos e tesos, qual velhos mangrulhos se fazem vigílias rondando fogões...
- A fúria hibernal das pagãs latitudes assombra voraz no arrojo do vento. Desmatizando as coxilhas ermas... Redemoinhando pelos pajonais... Arrepiando as águas dos açudes e forjando coplas nos caraguatás...
- A ponta de gado pastando ralhado e mugindo tristezas no andar vacilante se estende no ruro do guamirinzal. Temendo o gume do frio da garoa que abre picada na várzea cinzenta nas toças escassas de algum pastiçal...
- Até os redomões, alçados e xucros retornam ariscos campeando a querência. Os desmamados: borregos e guaxos marasmam flaquitos, a gélida ausência...
O umbu já desnudo, galopeia minuanos inerte e rijo de crista ao relento, as folhas se foram num fim nevoento qual almas caídas num frio desencanto...
... O vento relincha nas frestas e quinchas... O chuvisqueiro há dias previsto e profetizado por sábios campeiros encharca o silêncio em lerdas goteiras. Pancadas de neves com asas de plumas prateiam em alces as vãs cumeeiras... E lá dentro eles, solenes... fugidos em si bem junto ao braseiro... Os povoadores das estepes bugras, os descendentes da natureza rude num pago extremo que os fez herdeiros...
Esses homens... Alguns, estancieiros coronéis caudilhos por atavismo. Outros, despilchados changadores campeadores de “la suerte”. Outros, desbravadores de rumos que levam as almas nuas geografias de taperas... Mas todos “hermanos” perante o rigor e todos curtidos na mesma intempérie...
Palmeando a distância e abrindo clareira na tarde sebruna um olhar pede cancha, esse olhar quase fala, sestroso e saudoso do aboio que urge na voz do tropeiro e do bufo rebelde de um potro em tropel...
Esses semblantes duros, são ternos... camuflados atrás de um bigode grande e ressequidos por geadas e tempos... mas ternos...
O dia se esvai... fugaz e lento com faixas ocres e densas num poente pardacento... depois, nem uma estrela espia o negror da ressonância... e eles ali, ensimesmados... a cismar previsões certamente precisas... O mutismo se faz prece... e o velho fogo de chão a mais crioula das piras, com brasas por oferendas a esses homens legendas os guardiões das invernias!!