O Velho, a Moura e o Portal do Tempo
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Num fim de tarde, na Pampa, no fundo de um campo aberto os cascos ferem silêncios que testemunham, ao certo, a estampa de um homem velho plantado sobre os arreios de uma égua - muy serena - mascando o ferro do freio!
O homem olhando ao longe percebe, por bom andante, as casas da Estância Nova de Don Licurgo Amarante! E com a noite chegando, deixando o dia partir, já pensa em pedir descanso pra amanhã cedo seguir!
A sua estampa é curiosa e traz um ar ancestral... Um bombachão de dois panos sob uma capa ideal! "Reiador" de cabo grande com a soiteira de arrasto numa moura - crina inteira - que pisa leve no pasto!
Traz prata nas nazarenas a refletir o sol-pôr! A liberdade dormindo no pardo do tirador! Carrega uma nostalgia pesada do coração! Dá: "Oh de Casa!" e apeia, pedindo pelo Patrão!
- "E o seu Licurgo? Se encontra?" Pergunta, bem entonado, e encontra dois olhos sérios de um piazito assustado. Ele devolve a pergunta, com seu sestro de guri: - "De qual Licurgo perguntas? O que te traz até aqui?"
- "Pelo Patrão Amarante... Don Licurgo, um baita irmão, meu amigo em que a fortuna é menor que o coração!" O moço franziu a testa, como quem custa a entender... Pensou, por vários segundos, para, por fim, responder:
"Pra mim a conta não fecha ou deve haver um engano pois o Licurgo morreu há quase cinquenta anos!" Mas relatou ser bisneto do falecido Amarante e ofereceu janta e "pouso" para o abrigo do andante.
Houve um silêncio, de abismo, depois o homem falou que vinha de algumas luas de um posto que ele deixou! Mas algo lhe perturbava no estreito do corredor e o quanto aquelas paragens tinham mudado de cor!
Que veio das solitudes, do ermo dos descampados... Que despertou das entranhas existenciais do passado! Disse que sabe das guerras, das tropas e das carretas, do tempo que se derrama na pátria das ampulhetas!
Talvez tenha se perdido no rastro das ventanias que quebram encruzilhadas e acordam a luz do dia! Pode ter atravessado, no tranco da moura alerta, a porteira da saudade que o tempo esqueceu aberta!
Eram muitas incertezas e tanto a se esclarecer... A certeza é que dois tempos se esbarraram sem querer! O velho encilhou os anos, pisou em pasto e flechilha, atravessou meio século e mais de cinco coxilhas!
Em meio à prosa, valiosa, ficou o moço encantado ouvindo cada relato de um campeiro do passado! Indagou de antigas lidas, das domas e gauchadas, das recorridas, ao trote, saindo de madrugada!
O velho foi ao galpão para deitar no lombilho! Deixou a moura pastando no Potreiro do Espinilho! O moço, ainda confuso, pouco depois o seguiu e se espantou encontrando o velho galpão vazio!
No potreiro não havia nem mesmo sinal da égua... Não se avistava uma alma no mínimo a meia légua! A estância estava dormida em sua eterna paciência de inventariar as distâncias no seu mister de Querência!
O moço, aflito, buscava respostas e entendimento não sabia se era um sonho ou um engano do Tempo... Pensou, apenas, consigo que, de repente, algum dia coubesse esse "contratempo" na ficção da poesia!
Mesmo depois de alguns anos o gurizito recorda... Volta e meia esquenta a água, ceva o mate e abre a porta; ali, mantém-se parado, mirando - ao longe - a paisagem e busca, junto às lonjuras, a moura e o velho na imagem!
Velho e moço não se encontram, nunca mais se encontrarão; são dois homens apartados por uma cerca em questão! Alambrada pelo Tempo, feita com a alma campeira, que apenas naquele dia viu uma moura roceira!
Talvez exista, escondido, pelos desvãos das distâncias, um portal onde o passado visite as velhas estâncias! Quem sabe se transfigure num velho desavisado que chega pedindo pouso sob um chapéu desbotado!
Estranho foi quando o moço contou desse "assucedido" e descreveu o andante com seus traços mal-vestidos! Sua avó grelou os olhos e disse no mesmo instante: "Esse homem é o meu pai, velho Licurgo Amarante!"
O moço buscou retratos amarelados de sede na seca amarga que o tempo eternizou nas paredes! Lá estava o velho e a moura sobre o capim, sob o céu, prisioneiros do passado numa tarde de papel!