Alma em Verso
Poesia

O Tempo à Pilcha do Pobre

Matheus Costa

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O tempo puiu de sombras a pilcha do índio pobre... Mas não escondeu a poeira e o costumeiro relaxo das botas cano dobrado. O lenço mal apertado, barbicacho de barbante... - Mas quem julgará errante? ...Ser pobre não é pecado!

O tempo puiu de sombras a pilcha do índio pobre, changueiro destes caminhos. E a claridade dos dias que iluminava as lonjuras, fez vista feia à costura rebentada da bombacha e aos tentos frouxos da encilha do seu mourito bragado.

Mala atada nos arreios com rombos pelas entranhas... ...bordada a teias de aranha e ciscos d'algum lugar. ...E a sina de andar e andar - com menos flores que espinhos - diz ao cruzador sozinho que a sua maior riqueza será sempre, com certeza, conversar co'estes caminhos.

Pois a fortuna lhe ronda nos corredores compridos que repisa, vez por outra. - Aromas das pitangueiras, aguadas de espelhos fundos... Tudo melhora o seu mundo de tão escassa importância para os olhos sonolentos e fundos pelas distâncias.

O tempo à pilcha do pobre - tão ligeiro e malicioso - debocha o feitio do toso do bragado anca de vaca. ...Das rédeas de trança fraca que mal sujeitam o tranco... E do seu palita branco que o mormaço não ataca.

E o vento (também andante) sopra e cochicha segredos no vai e vêm das estradas, enquanto tudo é silêncio. Lhe atiça breves angústias aos rastros dos próprios pés. E o pobre, sendo quem é, não dá ouvidos à tudo. - Lhe falta sorte e estudo, ...lhe sobra verdade e fé.

Nazarenas sem idioma pra cantarem pelas tardes... Basto atorado das domas que geme a dor do sem fim...

O tempo sabe a ferida que o pobre leva na alma e a cicatriz já benzida que formou casca na vida do homem que pouco tem; Mas pode cruzar o mundo, que por nenhum destes fundos deverá algo pra alguém.

A pilcha velha do pobre é como a segunda pele mais crioula que existiu. Uma brasa resistente aos invernos que a tristeza enganava ao coração. E mesmo sendo de um só, por hombridade e por dó já esteve em outras mãos.

Chiripá de tantos rumos, que não enfeitou a história do vidro de algum retrato. Afagado pelos matos e por varagens de sangas... Benzido co'as japecangas e puas de unha-de-gato. ...vive a noite neste pano, escurecido do barro das mangueiras e potreiros. E as estrelas que cintilam são carrapichos miúdos, prendidos à solidão.

O tempo à pilcha do pobre atrasa exatos ponteiros, espichando toda espera da simples crença vaqueana que habita a reza de alguém. - Porque o carente também ora seu terço profundo... ...prezando o bem deste mundo, muito mais que o próprio bem.

O tempo ao rancho do pobre alonga o pouso das geadas... Traz do fundo das canhadas o pampeiro - sopro forte - o Minuano, o vento norte... Todos só por judiação! ...Mas o sol deste rincão é poncho pra o despilchado; Aquecendo - bem postado - alma, corpo e coração!

Tirador de muitos golpes, cicatrizado dos anos e do sovel ramal grosso que corre, queimado o couro. Rangidos, berros de touro, argolas, grito, assovio... ...recheando o que está vazio na lembrança de quem sonha viver livre da vergonha que sequer mesmo sentiu.

O tempo ao rincão do pobre, quanto menos ele espera, faz do seu lugar, tapera... ...E é tarde quando descobre!

Mas a saudade que fica, eterniza no lugar uma ânsia de voltar que muito significa!

...E deste mesmo lugar afastado das palavras compradas pela mentira, vem a pureza que inspira à buscar distâncias largas. À não ser lembrança vaga, mas vagar nestas funduras... ...na tão valhiosa procura do sonho que lhe embriaga.

Sombreiro copa de bico, conhecedor dos verões ou das mangas estendidas... E, embora a aba batida pra baixo, d'encontro ao rosto:

"- Sim 'sinhô! Eu tenho o gosto de virar mundo, montado... Amigo mesmo é o bragado! Fortuna é seguir adiante! Quem me julgará errante? ...Ser pobre não é pecado!"